Faminta



 Gosto quando estás em mim
Quando sinto tua mão firme e macia em minhas coxas
Apertando lentamente  minhas pernas 
Depois com mais força 
Com fome 
Com vontade
Quando sinto tua língua molhada 
Deslizando 
Mordendo 
Lambendo 
Me deixando arrepiada 
Louca de vontade 
Sedenta
Faminta
Molhada
Gosto. 



Equatorial


 

Teus olhos tem uma cor


 Teus olhos têm uma cor

de uma expressão tão divina,

tão misteriosa e triste.

Como foi a minha sina!!!


É uma expressão de saudade

vagando num mar incerto.

Parecem negros de longe...

Parecem azuis de perto...


Mas nem negros nem azuis

são teus olhos meu amor...

Seriam da cor da mágoa,

se a mágoa tivesse cor.


Florbela Espanca 

E não devemos negar-nos nenhum prazer

... e que nada nem ninguém é mais importante do que nós próprios. E não devemos negar-nos nenhum prazer, nenhuma experiência, nenhuma satisfação, desculpando-nos com a moral, a religião ou os costumes.

Marquês de Sade

  

Sem...

                                            Foto:  Luis Gaspar


Vem dormir nos meus sonos
enquanto se acalma o mar.
Sinto assim um pedaço do teu amor
no fragmento imenso das noites dançarinas.
Os acordes do vento recordam-me
as noites em que esquecemos os demais,
aquelas eternas noites de portas douradas
sem o sabor amargo das palavras mudas
e da tristeza dos gestos quietos de hoje.

O tempo não teve compaixão
e o vazio das tuas sombras
desenham-se agora na cama
que um dia desejaste…
Secaram os beijos e as carícias
que galopam nos dias perdidos de ontem
e os sonhos que foram de outra cor
agora em fogo cinza,
dormem sob as pedras,
sem refúgio, sem calor
sem paixão, sem amor.


António Carlos Santos 

 

Sexta feira 13


 

Te basta?

 

No silêncio da madrugada essa saudade sem rosto 
Um passado de alguma cumplicidade, raro afeto e tantas palavras
Hoje sem presente 
 Amanhã sem futuro 
Só a lembrança das conversas sem olhos 
Do zelo sem abraços  ou daquele beijo na testa ( nunca dado) 
Sem calor
Talvez um quase amor ou um quase nada
Alguns risos e muitas  melancolias 
Alguma troca 
 Oposto.  estranheza.  dúvida. 
Um querer (  meu).
Ainda estás aqui.
Já basta. 
Te basta?  




Carne trêmula

 


Nem venha,

Se não for para doer

Se não for para queimar

Se não for para entregar

Se não for para perder,


No meu jogo

Quem dá as regras sou eu;


Nem venha

Se não for para marcar

À fogo e mel

A pele que me habita

A boca que deseja

A febre que arde

E nunca tem cura;


Nem venha

Se não pode arriscar

Em perder tudo

Ou ganhar o céu

Voo sem previsão

De pouso seguro

Turbulência no coração.


Mariana de Almeida

NÃO TE APAIXONES POR UMA MULHER ASSIM


 

Não te apaixones por uma mulher que lê, por uma mulher que tem sentimentos, por uma mulher que escreve.


Não te apaixones por uma mulher culta, maga, delirante, louca. 


Não te apaixones por uma mulher que pensa, que sabe o que sabe e também sabe voar, uma mulher que confia em si mesma.⁣


Não te apaixones por uma mulher que ri ou chora, que sabe transformar a carne em espírito.


Muito menos te apaixones por uma mulher que ama poesia (estas são as mais perigosas), ou que fica meia hora contemplando uma pintura e não é capaz de viver sem música.


Não te apaixones por uma mulher que está interessada em política, que é rebelde e sente um enorme horror pelas injustiças. 


Não te apaixones por uma mulher que não gosta de assistir televisão. 


Nem de uma mulher que é bonita, mas, que não se importa com as características de seu rosto e de seu corpo.⁣


Não te apaixones por uma mulher intensa, brincalhona, lúcida e irreverente. 


Não queiras te apaixonar por uma mulher assim. 


Porque quando te apaixonares por uma mulher como esta, embora ela vá ficar contigo ou não e se ela te ama ou não, de uma mulher assim, jamais conseguirás ficar livre.


Martha Rivera-Garrido

Eu não vou te pertencer

 Matrix... - Sou puta, sou mulher e não sou robô!




Quando uso a boca vermelha

Meu salto agulha

E meu vestido preto.

Sou puta

Mordo no final do beijo

Não fico reprimindo desejo

E nem me escondo na aparência de menina.

Sou uma puta de primeira

Acordo às 6:30

Pego ônibus debaixo de chuva

Não dependo de salário de macho

E compro a pílula no final do mês.

Sou uma puta com P maiúsculo

Dispenso o compromisso

Opto pela independência

Não morro de amor

Acordo sozinha

Cresço sozinha

Vivo na minha

Bebo em um bar de esquina

Vomito no chão da cozinha.

Sou uma putinha

Passo a noite em seus braços

Mas não me prendo no laço

Que você quer me prender.

Sou puta

Você tem o meu corpo

Porque eu quis te dar

E quando essa noite acabar

Eu não vou te pertencer

E se de mim você falar

Eu não vou me importar

Porque um homem que não me faz gozar

Nunca terá meu endereço.

E não é gozo de buceta

É gozo de alma

É gozo de vida

É me fazer sentir amada

Valorizada

E merecida

E se de puta você me chamar

Eu vou agradecer.

Porque a puta aqui foi criada

Por uma puta brasileira

Que ralava pra sustentar os filhos

E sofria de racismo na feira

Foi espancada e desmerecida

E mesmo sofrida

Sorria o dia inteiro

Uma puta mulher ela foi

E puta também eu quero ser.

Porque ser mulher independente

Resolvida

Segura

Divertida

Colorida

E verdadeira

Assusta os homens

E os machos

Faz acontecer um alvoroço.

Onde já se viu mulher com voz?

Tem que ser prendada e educada

E se por acaso for “amada”

Tem direito de ser morta pelo parceiro

Cachorra adestrada pelo povo brasileiro

Sai pelada na revista

Excita

Dança

Bate uma

Cai de boca

Mama ele e os amigos

E depois vai ser encontrada num bueiro

Num beco

Estuprada

Porque tava de batom vermelho

Tava pedindo

Foi merecido

E se foi crime “passional”

Pobre do rapaz

Apaixonado estragou a própria vida.

Por isso que eu sou puta

Porque sou forte

Sou guerreira

Não sou reprimida

Nem calada

Sou feminista

Sou revoltada

Indignada

E sou rotulada assim

Como PUTA!

Então que eu seja puta

E não menos do que isso.


 Helena Ferreira 


Não sou


" Eu estou bonita, mas não sou bela. Tenho pecados, mas não sou o diabo. Sou boa, mas não sou anjo." 
Marilyn Monroe

HÁ NOS ARES


Há nos ares o presságio
de um retorno ao passado
um silêncio coletivo expirado
que um dia acordou sob a força do horror
pela voz dos senhores da guerra
esbravejantes furiosos da beirada da Terra
que, plana, plaina etérea na noite
ante outra terra que acolhe seus corpos

(mas isso é assunto dos mortos)

Observamos, à espreita,
como num grande espetáculo
um estranho baile de máscaras
na Veneza do andar de baixo
onde sem toque de recolher
o fascismo se ergue e ruge
bem no centro da cidade
e alguns correm avassalados

(mas isso é assunto dos ratos)

É o tempo presente no futuro ao contrário
feito farsa nefasta fulminando os fatos
Que distorcem a dor
que desfazem da fome
uma dor que tem cor, mas falta o nome
no epitáfio do sentido.
Um dia a humanidade
há de explicar tal tormento

(mas isso é assunto do tempo)

A sanidade, desfigurada, em vã amargura
ao olhar-se no espelho preferiu a loucura
pois com ela se levantam deuses próprios...
-Mas é tarde – diz o coelho – é muito tarde!
e sequer levantamos para o seguir
e quem sabe cair por uma fenda
onde as horas sejam crianças e haja tempo
pra cada Alice reescrever a sua parte

(mas isso é assunto da arte)

A arte que atormenta e revolve os sentidos
quando nada faz sentido e a ordem é gritar
Ficaremos na espera?
Ficaremos na escuta?
Nos faremos conchas mudas
frente ao apelo do mar?
Gritar pois! Nas ruas! Ao arrebentar do peito!
Com efeito! De novo e de novo e de novo!

E isso é assunto do povo!

Alana Nunes

Se for possível, manda-me dizer


– É lua cheia, a casa está vazia. –
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
– É lua nova –
E revestida de luz te volto a ver.

HILDA HILST

Nudez


Sério que você acha que a viu nua
Só porquê ela tirou a roupa?
Só por expor a carne sedutora de seu corpo?

Quais são os sonhos dela?
Do que ela mais gosta de ouvir?
O que ela mais gosta de fazer?
Do que ela tem medo?
Do que ela mais tem coragem?
O que a causa arrepios?
O que excita a sua alma?
Qual seu cheiro preferido?
O que lhe faz queimar de raiva?
O que lhe faz derreter de amor?

Não sabe?
Jura mesmo que a viu nua?
Viu coisissima nenhuma!
Você nem ao menos olhou no fundo dos olhos dela!
Não viu a mulher indomável e feroz como uma pantera
Nem mesmo a mulher sensível num corpo de donzela
Você tampouco sentiu a dor dela
Ela é como um livro, mas você nem tem a coragem de abrir
Mulher como esta, você não verá nem ao encher da lua
Então nem ouse dizer que a viu nua.


DjhordanGomes - Maldito Poeta

Mimosa boca e santa

Artista Jorge Gouvea

Mimosa boca errante
à superfície até achar o ponto
em que te apraz colher o fruto em fogo
que não será comido mas fruído
até se lhe esgotar o sumo cálido
e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
mas rorejando a baba de delícias
que fruto e boca se permitem, dádiva.
Boca mimosa e sábia,
impaciente de sugar e clausurar
inteiro, em ti, o talo rígido
mas varado de gozo ao confinar-se
no limitado espaço que ofereces
a seu volume e jato apaixonados
como podes tornar-te, assim aberta,
recurvo céu infindo e sepultura?
Mimosa boca e santa,
que devagar vais desfolhando a líquida
espuma do prazer em rito mudo,
lenta-lambente-lambilusamente
ligada à forma ereta qual se fossem
a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
oh chega, chega, chega de beber-me,
de matar-me, e, na morte, de viver-me.
Já sei a eternidade: é puro orgasmo.

– Carlos Drummond de Andrade

Segunda pele


NUNCA MAIS TE DAREI O TEMPO PURO


Nunca mais te darei o tempo puro
Que em dias demorados eu teci
Pois o tempo já não regressa a ti
E assim eu não regresso e não procuro
O deus que sem esperança te pedir

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

Da Prosa: Axelrod"

Também te sentes como um bêbado olhando o mundo, compreendendo sem poder verbalizar o compreendido?

Hilda Hilst 

Sem ontem ou amanhã...só o hoje

Foi bom até quando começou a doer mais do que ter leveza
Não vivo de ontem nem de amanhã
Vivo o hoje
É bom, ótimo
É ruim, adeus!


Porque dormias nela tu futuro

"Quando te vi, amei-te já muito antes.
Tornei a achar-te quando te encontrei.
Nasci pra ti antes de haver o mundo.
Não há coisa feliz ou hora alegre
Que eu tenha tido pela vida fora,
Que não o fosse porque te previa,
Porque dormias nela tu futuro,
E com essas alegrias e esse prazer
Eu viria depois a amar-te."

Fernando Pessoa

Corro perigo



Corro perigo
Como toda pessoa que vive
E a única coisa que me espera
É exatamente o inesperado


Clarice Lispector

Nenhum lugar é meu



Minhas certezas se alimentam de dúvidas.
E há dias em que me sinto estrangeiro em Montevidéu como seria em qualquer lugar do mundo. 
E, nestes dias, dias sem sol, noites sem lua, nenhum lugar é meu lugar…
…e não consigo me reconhecer em nada nem em ninguém.

Eduardo Galeano

"Ainda bem que existe a Bethânia" como diz um amigo querido...


Madrugadas infinitas

A madrugada, minha companhia constante
Entre pensamentos aflitivos, pandemia por covid 19, o pânico da morte e a inquietude.
A angústia de viver em um país tão rico e tão egoísta. De um povo morador de ilha, ganancioso e medíocre
A dor da humanidade 
O caos em tudo
O caos em mim
Uns dias bem outros não sei 
Sei das madrugadas infinitas
Das noites olhando pela janela 
A negritude e o nada
O vento gelado
A chuva fina e constante
Tu em mim
A vontade de estar em ti
E a certeza da tolice disso tudo
O dia amanhecendo 
Um pouco de paz e sanidade
Mas quem quer a lucidez
Eu quero o caos
Ele me liberta
Me refina
A manhã chega trazendo o ontem
A perspectiva do nada
Não há saída
Ainda não há
Haverá?
Talvez na próxima madrugada





Emergência


Os versos que decorei para ti

O amor estava sob a mesa, mostrando-me seus grandes olhos fixos, seus imperceptíveis segredos noturnos. E sorrindo suavemente enquanto caminhávamos pela calçada em um dia iluminado de outono, em qualquer século. Depois da curva do rio só há mais águas verdes e algumas esperanças esparsas, eu tentava te dizer. Além do oceano só há mais terra, gente e o silêncio das noites claras, pensava em esquecer. Pessoas fazendo as mesmas coisas que se faz cá do outro lado, nestes desfiladeiros de esperas e ausências. Quando a tempestade abrupta despencou sob a terra eu não trazia guarda-chuva e andava de ônibus olhando para a cidade, reparando em suas composições estranhas, sujas, não-ordenadas. Meus pés encharcados, meus cabelos molhados, meus cadernos riscados, meus poemas ruins e esquecidos, as coisas que eu detesto empilhadas enquanto as águas embriagadas de céu saltavam da eternidade, de um lugar que não conheço, nem alcanço. Muito além de nós. Na vertente de rio manso não se vê o fundo, não se conta mais as horas. Tudo é começo, impulso de vida, de prazer. Queria saber o que é e como nasce. Mais tarde, em casa, diante do silêncio das noites invisíveis. Você me oferecia um café, nesse sopro de existência teus olhos eram os faróis que conduziam. Eu te oferecia uns versos que decorei. Ainda lembra? "Corridinho" da Adélia. Era assim, de frente: "O amor quer abraçar e não pode/ A multidão em volta / Com seus olhos cediços / Põe cacos de vidro no muro para o amor desistir..." Recitava estas palavras e as minhas mãos falavam aquilo que meus lábios não tinham coragem de dizer, mas deveriam. Tanta coisa que se deve fazer nessa vida. Tanta carta escrita e nunca entregue. Esquece. Ninguém manda mais carta nesse mundo, ninguém lembra da importância dos trens, das chegadas e partidas nas estações. Os trilhos estão quebrados, os maquinistas desempregados, barco sem porto, tempo que varre o mofo, soterrando corpos e mentes. Por isso escrevemos coisas como cartas e se faz coisas como declarações de amor, ridículas, estupidamente ridículas diria Fernando Pessoa, ainda que belas. 
Se eu não fosse tão prosaica ao pensar nestas histórias antigas escritas por seres mortos... Enviaria a bendita carta, assinaria meu nome com essa letra grande, esse perfume grudado nas páginas, beijando as memórias de certo inverno, experimentando um aroma que quando se misturava ao teu naquelas manhãs de junho inventava segredos que não ouso contar. O frio lá fora, um alvorecer entre pernas e lábios, dizendo-me tudo. Barulho de trens, explicações nas cartas: Com todo carinho do mundo e tantas coisas para dizer. Escrever é só uma flor jogada ao mar, uma forma de não me calar para sempre, um jeito de dizer do amor, da coragem, da solidão. E publicar... acho que publicar é só uma maneira de evitar a decomposição da matéria orgânica, de criar laços singulares com quem lê, de abrir possibilidades de debate, democrático, onírico.
Essas coisas de gente clichê, de gente comum que enxerga pouco além da esquina ou além do próprio egoísmo. Ah, eu sei como dói abrir as verdades, revirar as misérias, esbarrar nas mentiras em uma tarde imensa de domingo. Só me resta te dizer que vale a pena, sim. Tem algumas coisas bem bonitas dentro das palavras, no vértice da vida que dança.

Giovana Carlos


Lenda do boto

Jorge Gouvea


"Pintura baseada na lenda do boto. Lenda esta, do norte do Brasil, que segundo ela, em noites de lua cheia o boto (animal inteligente e semelhante ao golfinho) surge dos rios amazônicos transformado num homem belo e sedutor, usando sempre roupas brancas e um chapéu na cabeça, com o propósito de atrair as moças para a beira do rio, a fim de ter relaçoes sexuais com elas para logo em seguida, engravidá-las."

Previne-te

És a nova pessoa atraída a mim?
Para começar previne-te, sou certamente bem diferente do que supões;
Supões que encontrarás em mim teu ideal?
Achas tão fácil me tornar teu amante?
Achas que minha amizade seria pura satisfação?
Achas que sou confiável e fiel?
Não vês além desta fachada, deste meu modo suave e tolerante?
Supões-te avançando em terreno sólido para um homem heroico real?
Não pensaste Oh sonhador que pode ser tudo maia, ilusão?

(WALT WHITMAN, 'Cálamo' - In: "Folhas de Relva".)


Através de um Espelho

"Traçamos um círculo imaginário ao nosso redor para afastar aquilo que não faça parte do nosso jogo secreto. Cada vez que a vida rompe esse círculo, os jogos se tornam insignificantes e ridículos. E então construímos um novo círculo e novas defesas."

"Através de um Espelho", 1961 •
Dir.: Ingmar Bergman.

Tédio

Então percebi, há algum tempo, que estava totalmente liberta do equívoco que me acompanhava há uns 20 anos.
Estranhamente não sentia mais nada. Era um tanto faz.
As conversas antes encantadoras foram perdendo o charme
As histórias antes, interessantes hoje não tinham mais unidade ou identificação. Aliás em algumas situações, sentia um enjôo. E não aqueles da bulimia, não os vômitos dos refinamentos, muito pelo contrário. Eram náuseas de tédio.
Mas algumas vezes insisti. Quem não gosta de uma bela história? Enfim...
Muitos desencontros e confesso, muitos eu causei. Não quis ir. Não tinha vontade. Arrumava desculpas, mentiras, afinal, sou maquiadora de diabos...
Eu me espantava pela indiferença que sentia.
Os cansaços da rotina virtual como se fosse um casamento de anos...
A obrigação de responder. Não queria mais aquilo.
Não sentia mais.
Não sinto mais....
A bizarrice no sexo estava me incomodando. Nada de puritanismo. Longe disso. Em princípio parecia um fetiche interessante. Depois vi que era algo que  necessitava de reciprocidade.  
Não era mais meu caso, nosso caso portanto.
Em certos momentos pensei e expressei
_ Não sinto absolutamente nada por ninguém!
Mas não era assim. Era por ele! Era ele.
Ou seja não era mais ele!
Hoje existe um nada.  
Estranho mais o fato de um dia ter acreditado em algo sem sintonia ou entendimento.
Não me sinto triste. Nem lamento. Não há dor.
Não vale a depressão ou o quase suicídio como foi dito.
 E de novo o tanto faz!
Só a reflexão: Não sobrou absolutamente nada! 
Não houve ataque de fúria, houve só uma exaustão exatamente nestas palavras
" Vai a merda!"
Mas a fragilidade e o ego masculino precisam de enfeites. Que seja! Se assim o satisfaz. 
Agora realmente livre das exaustivas
doses de veneno. 
E ao contrário do que foi dito " tudo muda, pode ter certeza que mudou. Hoje eu tenho a opção.
É bem diferente. Eu digo não. Eu não quero.
Há liberdade e tranquilidade na certeza de nunca mais permitir que alguém seja mais importante do que eu ou do que eu quero! Simples assim!

Sheela

Toda mãe é uma catedral...

quando ficamos sem casa, vi a mãe inclinar-se sobre nós, eu e meus irmãos. vi, e ela abria os braços à volta - como arbustos

o copado de uma árvore na qual o outono ia tardando sempre um dia mais
a chegar

.

quando ficamos sem ter o que comer, vi a mãe em torno do fogão. preparava a sopa, mantinha-se à beira do fogo

as palavras desprendendo-se dos seus lábios com uma tal aura de sonho

era na mãe uma mulher - e ia soprando canções
e tentava esquecer que amar envolve tanto de brutalidade

(querer que um caldo ralo feito de batata e sal engane a fome
de quatro bocas)

.

quando ficamos sem fé e sem futuro, vi a mãe erguer uma cabaninha
e nos chamando pra brincar no meio da sala. as cadeiras, uma em cada canto, e o cobertor estendido em cima

poderia ser uma igreja qualquer

(digamos, aquela onde a falta de fiéis tivesse levado ao cancelamento das missas)

toda mãe é uma catedral que, tendo se libertado do culto à tristeza de um deus
pode enfim abrigar essa tristeza
de gente


Marceli Andresa Becker

Bailarinas ao vento

Fotografia Luís Gaspar

Com o vento as saias balançam em harmonia 
Em uma sincronia criativa e sutil
Há beleza na dança do vento
Leveza e movimento em sua gira
O silêncio nas asas dos pássaros que enfeitam o cenário
No céu azul que beija o mar
O sol na pele de diamante
A luz salienta as marcas em um contraste marrom e branco
Vislumbres de paz e desejo
Uma vontade de pertencer
De ter
De ser
No balanço das saias das bailarinas ao vento.






Penny Dreadfull


Quem sabe...


O poeta


O engano

Sou tua, Deus sabe porque, já que compreendo
Que haverás de abandonar-me, friamente, amanhã,
E que embaixo dos meus olhos, te encanto
Outro encanto o desejo, porém não me defendo.

Espero que isto um dia qualquer se conclua,
Pois intuo, ao instante, o que pensas ou queiras
Com voz indiferente te falo de outras mulheres
E até ensaio o elogio de alguma que foi tua.

Porém tu sabes menos do que eu, e algo orgulhoso
De que te pertence, em teu jogo enganoso
Persistes, com ar de ator dono do papel.

Eu te olho calada com meu doce sorriso,
E quando te entusiasmas, penso: não tenhas pressa
Não es tu o que me engana, quem me
engana é meu sonho.

Alfonsina Storni

Deve chamar-se tristeza

Deve chamar-se tristeza
Isto que não sei que seja
Que me inquieta sem surpresa,
Saudade que não deseja.
Sim, tristeza — mas aquela
Que nasce de conhecer
Que ao longe está uma estrela
E ao perto está não a ter.
Seja o que for, é o que tenho.
Tudo mais é tudo só.
E eu deixo ir o pó que apanho
De entre as mãos ricas de pó.

Fernando Pessoa

Beleza


в υ к о w s к ı

"Eu havia rompido com a religião alguns anos atrás.
Se houvesse alguma verdade por trás dela, era uma verdade que idiotizava as pessoas ou atraía as mais idiotas. E se por acaso a religião não contivesse em si verdade nenhuma, os tolos que nela acreditavam seriam então duplamente idiotas." 

SEI-TE DE COR

Fotografia: No 54, de Adirek M


Sei-te de cor
Porque deixei meus dedos percorrerem
Teu corpo com ânsia e devoção sem fim
E cada traço teu ficou (e)ternamente gravado
Dentro e fora de mim

Sei-te de cor
Porque a tua voz que ainda embala meus sentidos
Trecho de sinfonia de pardais na madrugada
Permaneceu escrita em pautas musicais
Para ao longo da minha vida sempre ser tocada

Sei-te de cor
Porque o vento que não ensinaram a abraçar
E alimenta a minha nostalgia empurra-me veloz
Para os mais recônditos e distantes lugares
Onde tudo continua a falar de nós

Guardei-te de cor
Para preservar as marcas que me deixaste na memória
Confiar que para além de nós cada momento renascia
E que no livro onde juntos escrevemos a nossa história
A palavra "Fim" jamais se escreveria


Alice de Queiroz 


Securas mortais

Arte • © Lesley Oldaker.


"...não é raro encontrar desertos e securas mortais em meio de multidões.”

(José Saramago - "O Evangelho Segundo Jesus Cristo•

Viajei


Noturno

.

Não sou o que te quer. Sou o que desce
a ti, veia por veia, e se derrama
à cata de si mesmo e do que é chama
e em cinza se reúne e se arrefece.

Anoitece contigo. E me anoitece
o lume do que é findo e me reclama.
Abro as mãos no obscuro, toco a trama
que lacuna a lacuna amor se tece.

Repousa em ti o espanto que em mim dói,
noturno. E te revolvo. E estás pousada,
pomba de pura sombra que me rói.

E mordo o teu silêncio corrosivo,
chupo o que flui, amor, sei que estou vivo
e sou teu salto em mim suspenso em nada.

.

Bruno Tolentino

Florbela


Agradecimento


Devo muito
aos que não amo.

O alívio de aceitar
que sejam mais próximos de outrem.

A alegria de não ser eu
o lobo de suas ovelhas.

A paz que tenho com eles
e a liberdade com eles,
isso o amor não pode dar
nem consegue tirar.

Não espero por eles
andando da janela à porta.
Paciente
quase como um relógio de sol,
entendo o que o amor não entende,
perdoo,
o que o amor nunca perdoaria.

Do encontro à carta
não se passa uma eternidade,
mas apenas alguns dias ou semanas.
As viagens com eles são sempre um sucesso,
os concertos assistidos,
as catedrais visitadas,
as paisagens claras.

E quando nos separam
sete colinas e rios
são colinas e rios
bem conhecidos dos mapas.
É mérito deles
eu viver em três dimensões,
num espaço sem lírica e sem retórica,
com um horizonte real porque móvel.
Eles próprios não veem
quanto carregam nas mãos vazias.

“Não lhes devo nada” —
diria o amor
sobre essa questão aberta.

wislawa szymborska

Silêncios



Meu silêncio 
Teu silêncio
Respeito
Distância 
Está tudo bem.
Essa é a verdade
Não há nada além
Nenhum mistério ou segredo
Tudo é o que é
Sem véus
Sem mais
Nem tudo precisa de reticências
Nem tudo precisa de adeus.
Apenas foi
Apenas é.

Kk

Apressa-te amor

Não te fies do tempo nem da eternidade,
que as nuvens me puxam pelos vestidos
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!
Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
o lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te escuto!
Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo…
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te digo…


 Cecília Meireles

Nenhum mar mais forte

Artista Jorge Gouvea

“Nenhum mar mais forte que o mar dos sentimentos, em que ela nadava dentro dele, encrespando, nenhuma onda como as ondas do desejo, nenhuma espuma como a espuma do prazer. Nenhuma areia mais morna que a pele e a areia movediça das carícias. Nenhum sol mais poderoso que sol do desejo, nenhuma neve como a neve de sua resistência derretendo em alegrias azuis, em lugar nenhum uma terra tão rica quanto a carne. Ela dormia, caía em transe, estava perdida, sentia-se renovada, abençoada, transpassada pela felicidade, aquietada, queimada, consumida, purificada, nascida e renascida dentro do ventre da baleia da noite”.


Anaïs Nin

Tudo vive em mim

Tudo vive em mim. Tudo se entranha  
Na minha tumultuada vida. E por isso 
Não te enganas, homem, meu irmão,  
Quando dizes na noite, que só a mim me vejo.  
Vendo-me a mim, a ti. E a esses que passam  
Nas manhãs, carregados de medo, de pobreza,  
O olhar agudo, todos eles em mim,  
Porque o poeta é irmão do escondido das gentes  
Descobre além da aparência, é antes de tudo  
LIVRE, e porisso conhece.
Quando o poeta fala  
Fala do seu quarto, não fala do palanque,  
Não está no comício, não deseja riqueza  
Não barganha, sabe que o ouro é sangue  
Tem os olhos no espírito do homem  
No possível infinito. Sabe de cada um  
A própria fome. E porque é assim, eu te peço:  
Escuta-me. Olha-me. Enquanto vive um poeta  
O homem está vivo.

H.H

O silêncio das almas

 Eu não quero ser o destino  Prefiro ser o caminho.  Eu não quero ser despedida  Prefiro ser reencontro.  Eu não quero ser ponto final  Pref...