Ficção de que começa alguma coisa

 Ano novo, todo dia é outro dia. O que muda o ciclo é o pensamento, a liberdade e a ação....que a evolução individual, o entendimento e o silêncio estejam  presentes em todos nós...


"Ficção de que começa alguma coisa!

Nada começa: tudo continua.

Na fluida e incerta essência misteriosa

Da vida, flui em sombra a água nua.

Curvas do rio escondem só o movimento.

O mesmo rio flui onde se vê.

Começar só começa em pensamento"


Fernando Pessoa

Extravio


Onde começo, onde acabo,

se o que está fora está dentro

como num círculo cuja

periferia é o centro?


Estou disperso nas coisas,

nas pessoas, nas gavetas:

de repente encontro ali

partes de mim: risos, vértebras.


Estou desfeito nas nuvens:

vejo do alto a cidade

e em cada esquina um menino,

que sou eu mesmo, a chamar-me.


Extraviei-me no tempo.

Onde estarão meus pedaços?

Muito se foi com os amigos

que já não ouvem nem falam.


Estou disperso nos vivos,

em seu corpo, em seu olfato,

onde durmo feito aroma

ou voz que também não fala.


Ah, ser somente o presente:

esta manhã, esta sala.


     Ferreira Gullar

Hilda Hilst

 "A vida foi isso de sentir o corpo, contorno, vísceras, respirar, ver, mas nunca compreender 

Por isso é que me recusava muitas vezes. queria o fio lá de cima, o tenso que o OUTRO segura, o OUTRO, entendes?"


De Qué Callada Manera


 

Nada deixou de existir só não faz mais sentido


Ainda queima 

Vibra 

Inquieta 

Ainda dói 

Arrepia 

Não é constante 

O vento traz o cheiro ao acaso 

O calor 

A  boca 

 Saliva 

 Suor 

O abraço forte 

O sussurro 

...

Nada deixou de existir 

Tudo está aqui 

Só não faz mais sentido. 


Gosto...


Gosto de estar sozinha sabendo que há gente perto, gosto de me estender na relva, de me sentar no chão, de andar descalça. 
Gosto dos fins de tarde, no verão, da luz a adormecer no rio. 
Gosto de me enterrar na areia, de mergulhar nua no mar.
Gosto do cheiro dos lençóis lavados, principalmente daqueles que a mãe punha na cama quando eu era criança. 
Gosto de lembrar o assobio do meu pai quando chegava a casa. 
Gosto de gargalhadas destrambelhadas, gosto de dançar feita doida.
Gosto de me enroscar. Gosto de mantas e lenços.
Gosto de entrar num livro e perder a noção do tempo.
Gosto de personagens complexas, das suas fraquezas e contradições.
Gosto de retratos a preto e branco.
Gosto de me escapulir que nem lagartixa nos muros.
Gosto de sentir a água quente a correr pelo corpo.
Gosto de trepadeiras e árvores de copa redonda. 
Gosto de alpendres e cadeiras de baloiço.
Gosto de estar sentada no silêncio das igrejas, ainda que não seja crente. Gosto de vitrais e de florestas sombrias.
Gosto do cheirinho dos cachorros quando nascem e do pão acabado de cozer.
Gosto de gente e de abraços.
Gosto de adormecer os bebés ao som da minha voz.
Gosto do amor antes de acontecer.
Gosto do vermelho, gosto dele tingindo as papoilas, gosto dele apontando caminhos de revolta e de esperança.

Maria Jorgete Teixeira

O silêncio das almas

 Eu não quero ser o destino  Prefiro ser o caminho.  Eu não quero ser despedida  Prefiro ser reencontro.  Eu não quero ser ponto final  Pref...