Silêncio, solidão e vontade

Outra vez com aquele sentimento inquietante 
Do nada ele surge
Invade meu peito...
Todo meu  corpo.
Minha alma 
Sinto ansiedade
Desejo
Vontade
Silêncio e solidão
 
Uma saudade de algo,
De alguém.
De algo que já foi vivido.
A impossibilidade
Dúvida 
Culpa
Inquietude e intensidade
Fuga e dor
A não-paz 
O que fazer? 
Sentir até a última gota 
E esperar passar.
Será possível?
Creio que desta vez seja diferente
Está diferente.
Delicado demais.
Não quero
Quero!
Não posso.
Sou livre...posso sim.
Não devo.
Não devo.
Não devo!



Camarada vida, vamos adiante. Maiakovski

 

Este ano não vou votar como gostaria.
Tenho como foco sempre um projeto socialista, de esquerda, radical, que não compactua com conciliação de classes. Pelo contrário, desde jovem percebo a vida nessa sociedade burguesa com essa impossibilidade muito evidente. Também não acredito na democracia burguesa, nessa construção ilusória de escolha sempre entre um liberal e outro.
Mas, pelo meu entendimento da atual conjuntura, escolho um voto mais longe da minha ideologia e da luta que defendo, de maneira estratégica. Porque acredito mais na possibilidade de construção de socialismo na luta organizada – popular, não institucional; em comunidade, não centrada em um ídolo – em um governo Lula do que em um governo Bolsonaro. Em um governo que, mesmo com todos seus problemas típicos de um projeto liberal, apoia muitos dos movimentos contra concentração de terras do que em um governo cujo projeto incita violência contra os movimentos populares.
Voto em Lula na defesa de poder criticá-lo e lutar contra sua conciliação de classes, como sempre fiz. Possibilidade essa que em governo Bolsonaro é reduzida à violência, extremismo e ignorância. Não voto com orgulho, não voto com esperança em seu projeto. Voto pensando em construir meios pra luta que acredito longe do ódio violento, transfóbico, elitista, racista e misógino de Bolsonaro.


Evadir-me, esquecer-me, regressar

 

Evadir-me, esquecer-me, regressar
 À frescura das coisas vegetais,
 Ao verde flutuante dos pinhais 
E ao grande vento límpido do mar.

Sophia de Mello Breyner Andresen

 
 

A coisa mais linda que existe

 
 
 

Coisa linda nesse mundo

É sair por um segundo

E te encontrar por aí

E ficar sem compromisso

Pra fazer festa ou comício

Com você perto de mim
Coisa linda nesse mundo

É sair por um segundo

E te encontrar por aí

E ficar sem compromisso

Pra fazer festa ou comício

Com você perto de mim
Na cidade em que me perco

Na praça em que me resolvo

Na noite da noite escura

É lindo ter junto ao corpo

Ternura de um corpo manso

Na noite da noite escura
Lalaiá laiá, laiá laiá
A coisa mais linda que existe

É ter você perto de mim

A coisa mais linda que existe

É ter você perto de mim

A coisa mais linda que existe

É ter você perto de mim
O apartamento, o jornal

O pensamento, a navalha

A sorte que o vento espalha

Essa alegria, o perigo

Eu quero tudo contigo

Com você perto de mim
Lalaiá laiá, laiá laiá

Lá lá lá lá
A coisa mais linda que existe

É ter você perto de mim

A coisa mais linda que existe

É ter você perto de mim, de mim, de mim

A coisa mais linda que existe

É ter você perto de mim
A coisa mais linda que existe

É ter você perto de mim, de mim...
 
 Gilberto Gil / Torquato Neto

DAI-ME

 


"Dai-me a casa vazia e simples onde a luz é preciosa. Dai-me a beleza intensa e nua do que é frugal. Quero comer devagar e gravemente como aquele que sabe o contorno carnudo e o peso grave das coisas.
Não quero possuir a terra mas ser um com ela. Não quero possuir nem dominar porque quero ser: esta é a necessidade.
Com veemência e fúria defendo a fidelidade ao estar terrestre. O mundo do ter perturba e paralisa e desvia em seus circuitos o estar, o viver, o ser. Dai-me a claridade daquilo que é exactamente o necessário. Dai-me a limpeza de que não haja lucro. Que a vida seja limpa de todo o luxo e de todo o lixo. Chegou o tempo da nova aliança com a vida."
 
 
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

Não fui feita para o amor bem comportado



 

Tudo é transitório e inconstante.

Há em mim um pouco de tudo...

Pessoas, músicas e sons, lugares, sensações, memórias(ainda restam algumas)

Sou movida por instinto e intuição

Apesar de ter um lado muito forte de racionalidade em situações de emergência

Há uma dureza que não conhecia, ela me impede de chorar e sentir muitas vezes 

Em qual momento isso aconteceu não sei dizer, sei que é latente e está em mim.

Talvez seja por essa condição de dor e sofrimento constante. A vida não dá tréguas.

 Este estado de vigilância nos embrutece. Comigo é assim.

Sou feita de tantas histórias, de pessoas que chegaram e partiram, outras ainda permanecem. Umas mudaram de lugar, de sentimento, de intensidade.

Outras só passaram, nem lembro mais. 

Tudo é transitório e inconstante. E isso é ótimo. 

Dualidades. Contradições.

 Encantamentos fazem parte de meu dia. Um sorriso de um artista de rua, um protesto na praça, um estudante escolhendo livro em um sebo, aquela música tocando na loja, uma cena de um filme, o cheiro do café sendo preparado e do bolo de milho assando, um cão brincando na rua ...

Como disse em um outro texto (de algumas décadas) o mundo( belo e feio) ainda entra em mim com muita força

A fome, desigualdade, injustiça, preconceito, violência...acabam comigo. 

Não costumo sorrir muito, alguns dizem que tenho um riso irônico, outros dizem que é um riso triste

Acho que todos estão com razão. Sou um pouco disso mesmo, raramento dou gargalhadas e quando acontece soa desengonçada e me causa estranheza.

Sou cercada de pessoas  que eu creio, nasceram para me fazer sorrir, sentir e respirar. Elas me salvam sempre. De mim mesma, do mundo. Da feiura. Da secura.

As minhas pessoas.. algumas nem sabem que me são tão caras, outras não fazem ideia de como iluminam meu dia, são as desconhecidas ou não, as lutadoras, injustiçadas, incompreendidas, anônimas, amáveis, leves como uma pluma outras brutas como uma rocha. Outras não sei. Mas em algum momento "estão" minhas pessoas.

Há em mim muito de tudo o que foi. De tudo o que há. De tudo que não faço ideia do que seja.

 


 

 

 


  

 

  


Teu rosto


 É o teu rosto ainda que eu procuro

Através do terror e da distância

Para a reconstrução de um mundo puro.


Sophia de Mello Breyner Andresen

"O nome das coisas"


 Esta continua a ser a madrugada esperada
"Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo"

Sophia de Mello Breyner Andresen

Poesia e silêncio


 

Às vezes ainda tenho sede de ti


 (...) desculpa

o que te queria dizer talvez não fosse isto
a solidão turva-se-me de lágrimas
e nas pálpebras tremem visões do meu delírio
olho as fotografias de antigos desertos
corpos coerentes que fomos
bocas de papel amarelecido
onde a sede nunca encontrou a sua água
e às vezes ainda tenho sede de ti.

 Al Bert

Quero


Nos teus quartos forrados de luar

Onde nenhum dos meus gestos faz barulho

Voltar.

E sentar-me um instante

Na beira da janela contra os astros

E olhando para dentro contemplar-te,

Tu dormindo antes de jamais teres acordado,

Tu como um rio adormecido e doce

Seguindo a voz do vento e a voz do mar

Subindo as escadas que sobem pelo ar.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Tua voz rouca e suave

 "...Te faço versos

Mas não tens olhos

Nem ouvidos para mim

E me falas de coisas amenas

Como quem recita poemas

Enquanto admiro, silenciosa

Tua voz suave e rouca

Dos assuntos mais banais..."

Fernanda Coelho 

Desnuda


 Desejo


"Avanço a ponta
dos dedos
na mata da tua nuca
    
Onde o meu beijo
se perde
e na entrega desnuda."

Maria Teresa Horta

Abraça-me.


Abraça-me. Quero ouvir o vento que vem da tua pele, e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos. Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida na palidez de todos os caminhos, e que ambos mordemos para provar o sabor que tem a carne incandescente das estrelas. Abraça-me. Veste o meu corpo de ti, para que em ti eu possa buscar o sentido dos sentidos, o sentido da vida. Procura-me com os teus antigos braços de criança, para desamarrar em mim a eternidade, essa soma formidável de todos os momentos livres que a um e a outro pertenceram. Abraça-me. Quero morrer de ti em mim, espantado de amor. Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos, para que possa levá-la comigo e oferecê-la aos astros pequeninos.

Só essa água fará reconhecer o mais profundo, o mais intenso amor do universo, e eu quero que delem fiquem a saber até as estrelas mais antigas e brilhantes.

Abraça-me. Uma vez só. Uma vez mais.

Uma vez que nem sei se tu existes.


Joaquim Pessoa

Preciso esquecer


É preciso esquecer.
O nome. A coisa feita. O que partiu.
Até mesmo o que ficou. Esquecer.
Como esquecemos a primeira infância.

É preciso soprar o pó
do esquecimento 
com uma bondade livre.
Como a última graça
de quem quer viver.

E vive.

- Alana Nunes in "Uma palavra puxa a outra"

E me queimas...


Tudo vem ao chamamento. Penso mar, e o mar enche-me a alma e as mãos. Balbucio cal, e na pele do tempo cresce uma casa onde não viverei, ergue-se uma cidade de melancolia na incerteza dos punhos, e nela nos ferimos.

Digo sol, e quase cego consigo tocar-lhe. Só por ti clamo, e não te acendes, nem regressas, e me queimas.

AL BERTO, in LUNÁRIO 



Manhã tão bonita manhã


 

Te quiero


Tus manos son mi caricia
mis acordes cotidianos
te quiero porque tus manos
trabajan por la justicia

si te quiero es porque sos
mi amor mi cómplice y todo
y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos

tus ojos son mi conjuro
contra la mala jornada
te quiero por tu mirada
que mira y siembra futuro

tu boca que es tuya y mía
tu boca no se equivoca
te quiero porque tu boca
sabe gritar rebeldía

si te quiero es porque sos
mi amor mi cómplice y todo
y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos

y por tu rostro sincero
y tu paso vagabundo
y tu llanto por el mundo
porque sos pueblo te quiero

y porque amor no es aureola
ni cándida moraleja
y porque somos pareja
que sabe que no está sola

te quiero en mi paraíso
es decir que en mi país
la gente viva feliz
aunque no tenga permiso

si te quiero es porque sos
mi amor mi cómplice y todo
y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.

Mario Benedetti

O silêncio das almas

 Eu não quero ser o destino  Prefiro ser o caminho.  Eu não quero ser despedida  Prefiro ser reencontro.  Eu não quero ser ponto final  Pref...