Silêncio, solidão e vontade
Camarada vida, vamos adiante. Maiakovski
Evadir-me, esquecer-me, regressar
Sophia de Mello Breyner Andresen
A coisa mais linda que existe
DAI-ME
Tudo é transitório e inconstante.
Há em mim um pouco de tudo...
Pessoas, músicas e sons, lugares, sensações, memórias(ainda restam algumas)
Sou movida por instinto e intuição
Apesar de ter um lado muito forte de racionalidade em situações de emergência
Há uma dureza que não conhecia, ela me impede de chorar e sentir muitas vezes
Em qual momento isso aconteceu não sei dizer, sei que é latente e está em mim.
Talvez seja por essa condição de dor e sofrimento constante. A vida não dá tréguas.
Este estado de vigilância nos embrutece. Comigo é assim.
Sou feita de tantas histórias, de pessoas que chegaram e partiram, outras ainda permanecem. Umas mudaram de lugar, de sentimento, de intensidade.
Outras só passaram, nem lembro mais.
Tudo é transitório e inconstante. E isso é ótimo.
Dualidades. Contradições.
Encantamentos fazem parte de meu dia. Um sorriso de um artista de rua, um protesto na praça, um estudante escolhendo livro em um sebo, aquela música tocando na loja, uma cena de um filme, o cheiro do café sendo preparado e do bolo de milho assando, um cão brincando na rua ...
Como disse em um outro texto (de algumas décadas) o mundo( belo e feio) ainda entra em mim com muita força
A fome, desigualdade, injustiça, preconceito, violência...acabam comigo.
Não costumo sorrir muito, alguns dizem que tenho um riso irônico, outros dizem que é um riso triste
Acho que todos estão com razão. Sou um pouco disso mesmo, raramento dou gargalhadas e quando acontece soa desengonçada e me causa estranheza.
Sou cercada de pessoas que eu creio, nasceram para me fazer sorrir, sentir e respirar. Elas me salvam sempre. De mim mesma, do mundo. Da feiura. Da secura.
As minhas pessoas.. algumas nem sabem que me são tão caras, outras não fazem ideia de como iluminam meu dia, são as desconhecidas ou não, as lutadoras, injustiçadas, incompreendidas, anônimas, amáveis, leves como uma pluma outras brutas como uma rocha. Outras não sei. Mas em algum momento "estão" minhas pessoas.
Há em mim muito de tudo o que foi. De tudo o que há. De tudo que não faço ideia do que seja.
Teu rosto
Através do terror e da distância
Para a reconstrução de um mundo puro.
Sophia de Mello Breyner Andresen
"O nome das coisas"
Às vezes ainda tenho sede de ti
Quero
Nos teus quartos forrados de luar
Onde nenhum dos meus gestos faz barulho
Voltar.
E sentar-me um instante
Na beira da janela contra os astros
E olhando para dentro contemplar-te,
Tu dormindo antes de jamais teres acordado,
Tu como um rio adormecido e doce
Seguindo a voz do vento e a voz do mar
Subindo as escadas que sobem pelo ar.
Sophia de Mello Breyner Andresen
BREVE ENCONTRO
Este é o amor das palavras demoradas
Moradas habitadas
Nelas mora
Em memória e demora
O nosso breve encontro com a vida
Sophia de Mello Breyner Andresen
Tua voz rouca e suave
"...Te faço versos
Mas não tens olhos
Nem ouvidos para mim
E me falas de coisas amenas
Como quem recita poemas
Enquanto admiro, silenciosa
Tua voz suave e rouca
Dos assuntos mais banais..."
Fernanda Coelho
Desnuda
Abraça-me.
Abraça-me. Quero ouvir o vento que vem da tua pele, e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos. Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida na palidez de todos os caminhos, e que ambos mordemos para provar o sabor que tem a carne incandescente das estrelas. Abraça-me. Veste o meu corpo de ti, para que em ti eu possa buscar o sentido dos sentidos, o sentido da vida. Procura-me com os teus antigos braços de criança, para desamarrar em mim a eternidade, essa soma formidável de todos os momentos livres que a um e a outro pertenceram. Abraça-me. Quero morrer de ti em mim, espantado de amor. Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos, para que possa levá-la comigo e oferecê-la aos astros pequeninos.
Só essa água fará reconhecer o mais profundo, o mais intenso amor do universo, e eu quero que delem fiquem a saber até as estrelas mais antigas e brilhantes.
Abraça-me. Uma vez só. Uma vez mais.
Uma vez que nem sei se tu existes.
Joaquim Pessoa
Preciso esquecer
E me queimas...
Tudo vem ao chamamento. Penso mar, e o mar enche-me a alma e as mãos. Balbucio cal, e na pele do tempo cresce uma casa onde não viverei, ergue-se uma cidade de melancolia na incerteza dos punhos, e nela nos ferimos.
Digo sol, e quase cego consigo tocar-lhe. Só por ti clamo, e não te acendes, nem regressas, e me queimas.
AL BERTO, in LUNÁRIO
Te quiero
O silêncio das almas
Eu não quero ser o destino Prefiro ser o caminho. Eu não quero ser despedida Prefiro ser reencontro. Eu não quero ser ponto final Pref...
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Foto: Luis Gaspar Vem dormir nos meus sonos enquanto se acalma o mar. Sinto assim um pedaço do...








