Uma
borboleta que acabara de sair do casulo, ainda confusa e ofuscada pelas belezas de um
mundo, nunca antes visto.Uma pequena borboleta, simples como qualquer outra. Não era a mais bela de todas, não chamava atenção por isso.
Mas ela tinha uma diferença que encantava a todos, ela queria voar livremente e compartilhar com os animais da floresta as belezas de sua alma.
Porém ela tinha suas asas partidas com a dualidade da nobreza sublime e a deprimente podridão dos seres.
Ela não queria a rasura, buscava o infinito, a profundidade suprema.
E foi nestes vôos, onde a borboleta conheceu um belo tigre, genuíno, feroz, um inimigo natural.
E o encontro foi de uma delicadeza jamais vista no bosque. Ele forte com garras afiadas e ela suave, tranquila, batendo suas pequenas asas.
A borboleta ao lado do tigre, em meio a descobertas de outros vôos e pulos, na dor do amadurecimento e o comungar do verdadeiro e puro sentimento encontrou o aconchego de sua alma no dorso do tigre.
Com ele, a borboleta voava em toda sutileza dos divinos conhecimentos.
Ela o amava profundamente, e ele compartilhava seus sentimentos práticos, por poucas vezes passionais, a colocava em seu dorso e juntos viviam um amor de almas.
Porém em um dia de frio intenso e vento forte a borboleta resolveu partir, sentia-se triste por ter suas asas partidas, precisava encontrar-se, estava sufocada.
Então foi ao bosque e encontrou seu felino pela última vez, disse que precisava voar, o tigre então a olhou profundamente, lágrimas rolaram em seu focinho e a borboleta em silêncio assoprou-as carinhosamente, dizendo que ele era um tolo.
E assim um silêncio tomou conta da floresta.
Quando o mistério é demais, não ousamos desobedecer.
A borboleta voou lentamente como se quisesse que o Tigre a pedisse para ficar, mas ele continuava deitado na mata, quieto, frio, quase imóvel.
A dor da separação, de entender a impossibilidade desse amor, um beijo seria uma fatalidade, e ela continuou voando até não mais enxergar o Tigre.
E assim eles separaram-se definitivamente.
Dizem que o felino ainda visita a mata, deita-se no local onde comungavam e observa as borboletas, todas iguais, mas nenhuma parecida com sua pequena borboleta.
Hoje ele vive com as tigresas, adequadas a seus instintos naturais.
E ela voa livremente, conheceu outros bosques, felinos e outras borboletas.
Por breves instantes a tristeza ainda aparece sutilmente em seus olhos negros, na lembrança a saudade da indulgência do Tigre, do entendimento de suas almas e no coração a certeza de que nada nesta vida é absoluto.
Era uma vez...
