Presença


É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos…
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo…
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida…
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato…
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.

Mario Quintana

Simone de Beauvoir


„Entre as que se vendem pela prostituição e as que se vendem pelo casamento a única diferença consiste no preço e na duração do contrato.“ 

Artista: Jorge Gouvea 

Prelúdios-intensos para os desmemoriados do amor

Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me agora, antes
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.
Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.
Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.

Tateio. A fronte. O braço. O ombro.
O fundo sortilégio da omoplata.
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.
Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
Em lúcida altivez, eu já sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De núpcias e caminho
É tão diversa da tua fronte descuidada.
Tateio. E a um só tempo vivo
E vou morrendo. Entre terra e água
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta.

Hilda Hilst

Essas tuas verdades

Essas tuas verdades
Vão acabar criando deuses
caindo de escadas
saltando da vida
pulando sacadas

essas  tuas verdades
vão acabar acordando demônios
tropeçando nas cores
pisoteando a grama
represando as dores

essas tuas verdades
vão acabar despertando luxúrias
causando pudores
mordendo a carne
retesando amores

essas tuas verdades
nem parecem mentiras.

Valder Valeirão - livro "Outonos no chão" 

Um poeta de uma beleza intensa. 

Confissão


Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios

Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece…
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!

 Mario Quintana, do livro “Velório sem defunto”, 1990.

"Noites Escuras Em Claro".
Artista: Jorge Gouvea 


Je vais t'aimer


Até fazer empalidecer todos os "Marqueses de Sade"
Até fazer corar todas as prostitutas do porto
Até fazer ecos de clemência
Até fazer tremer os muros de Jericó
Eu vou te amar
Até fazer arder o fogo do inferno nos teus olhos
Até fazer praguejar todos os trovões de Deus
Até fazer erguer teus seios e todos os Santos
Até fazer nossas mãos implorarem e suplicarem
Eu vou te amar
Eu vou te amar
Como ninguém jamais te amou
Eu vou te amar
Bem além que os teus sonhos puderam imaginar
Eu vou te amar, eu vou te amar
Eu vou te amar
Como ninguém jamais ousou te amar
Eu vou te amar
Como eu muito desejava ser amado
Eu vou te amar, eu vou te amar
Até a noite envelhecer e clarear
Até queimar a luz do amanhecer
Apaixonadamente e até à loucura
Eu vou te amar, eu vou te amar de amor
Até se identificar, até fechar nossos olhos
Até sofrer uma dor de matar nossos corpos
Até nossas almas voarem aos sétimos céus
Até acreditar nos mortos e fazer amor novamente
Eu vou te amar
Eu vou te amar
Como ninguém jamais te amou
Eu vou te amar
Bem além que os teus sonhos puderam imaginar
Eu vou te amar, eu vou te amar
Eu vou te amar
Como ninguém jamais ousou te amar
Eu vou te amar
Como eu muito desejava ser amado
Eu vou te amar, eu vou te amar

Compositor: Michel Sardou, Gilles Thibaut



Pensando Em Você


Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Pensar em te esquecer
Pois quando penso em você
É quando não me sinto só
Com minhas letras e canções
Com o perfume das manhãs
Com a chuva dos verões
Com o desenho das maçãs
Com você me sinto bem
Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer
Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer
Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Pensar em te esquecer
Pois quando penso em você
É quando não me sinto só
Com minhas letras e canções
Com o perfume das manhãs
Com a chuva dos verões
Com o desenho das maçãs
Com você me sinto bem
Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer


Paulinho Moska




Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor

Cheguei a tempo de te ver acordar
Eu vim correndo à frente do sol
Abri a porta e antes de entrar
Revi a vida inteira
Pensei em tudo que é possível falar
Que sirva apenas para nós dois
Sinais de bem, desejos vitais
Pequenos fragmentos de luz
Falar da cor dos temporais
Do céu azul, das flores de abril
Pensar além do bem e do mal
Lembrar de coisas que ninguém viu
O mundo lá sempre a rodar
E em cima dele tudo vale
Quem sabe isso quer dizer amor
Estrada de fazer o sonho acontecer
Pensei no tempo e era tempo demais
Você olhou sorrindo pra mim
Me acenou um beijo de paz
Virou minha cabeça
Eu simplesmente não consigo parar
Lá fora o dia já clareou
Mas se você quiser transformar
O ribeirão em braço de mar
Você vai ter que encontrar
Aonde nasce a fonte do ser
E perceber meu coração
Bater mais forte só por você
O mundo lá sempre a rodar
E em cima dele tudo vale
Quem sabe isso quer dizer amor
Estrada de fazer o sonho acontecer

Canção de Milton Nascimento
Esta versão de “Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor” (Lô Borges/Marcio Borges), arranjada e executada por Moska, é a faixa 10 de “Mar Azul”, tributo produzido por Fernando Neumayer e Luís Martino, com músicas dos mineiros do Clube da Esquina.



Lila Downs - Foi na travessa da palha -



Foi na travessa da palha é uma canção portuguesa, com letra de Gabriel de Oliveira e musicada por Frederico de Brito, interpretada originialmente pela fadista Lucília do Carmo, em gênero de fado, em 1958. Fado castiço por natureza, emblema do fado lisboeta, o tema é recorrente no fado, ou seja, os dissabores amorosos. Desta feita, tratado de forma mais alegre, relata um competição entre fadistas por um amante gingão, numa das velhas tascas ou tabernas lisboetas, denominada por «taberna de friagem». Entre o repertório de Lucília do Carmo, a par de Maria Madalena, este é o fado mais emblemático da sua carreira como fadista, que a levou, inclusive, ao Brasil. No filme Fados, do espanhol Carlos Saura, Lucília é recordada por Lila Downs com a sua interpretação deste mesmo fado, com pronúncia vagamente castelhana, colocando a música novamente na roda do fado contemporâneo. O fado foi também interpretado pela fadista Cidália Moreira.






Foi na Travessa da Palha Que o meu amante, um canalha, Fez sangrar meu coraçao: Trazendo ao lado outra amante Vinha a gingar petulante Em ar de provocaçao. Na taberna de friagem Entre muita fadistagem Enfrentei os seus rancores, Porque a mulher que trazia Com certeza nao valia Nem sombra do meu amor. A ver quem tinha mais brio Cantamos ao desafio Eu e essa outra qualquer. Deixei-a perder de vista Mostrando ser mais fadista Provando ser mais mulher. Foi uma cena vivida De muitas da minha vida Que nao se esquecem depois, Só sei que de madrugada Após a cena acabada Voltamos para casa os dois.




Palavras Ao Vento



Ando por aí querendo te encontrar
Em cada esquina paro em cada olhar
Deixo a tristeza e trago a esperança em seu lugar

Que o nosso amor pra sempre viva
Minha dádiva
Quero poder jurar que essa paixão jamais será

Palavras apenas
Palavras pequenas
Palavras

Ando por aí querendo te encontrar
Em cada esquina paro em cada olhar
Deixo a tristeza e trago a esperança em seu lugar

Que o nosso amor pra sempre viva
Minha dádiva
Quero poder jurar que essa paixão jamais será

Palavras apenas
Palavras pequenas
Palavras, momento

Palavras, palavras
Palavras, palavras
Palavras ao vento

Ando por aí querendo te encontrar
Em cada esquina paro em cada olhar
Deixo a tristeza e trago a esperança em seu lugar

Que o nosso amor pra sempre viva
Minha dádiva
Quero poder jurar que essa paixão jamais será

Palavras apenas
Palavras pequenas
Palavras, momento

Palavras, palavras
Palavras, palavras
Palavras ao vento

Palavras apenas
Apenas palavras pequenas
Palavras


Composição: Marisa Monte / Moraes Moreira ·

Jack Kerouac

"Gosto de muitas coisas ao mesmo tempo e me confundo inteiro e fico todo enrolado correndo de uma estrela cadente para outra até desistir. 
 Assim é a noite e é isso que ela faz com você, eu não tinha nada a oferecer a ninguém, a não ser minha própria confusão."

Khalil Gibran

“Como você punirá aqueles cujo remorso já é maior do que os seus crimes?”



Maria Bethânia e Caetano Veloso - De Manhã (DVD Noite Luzidia)


É de manhã
É de madrugada
É de manhã
Não sei mais de nada
É de manhã
Vou ver meu amor

É de manhã
Vou ver minha amada
É de manhã
Flor da madrugada
É de manhã
Vou ver minha flor

Vou pela estrada
E cada estrela
É uma flor
Mas a flor amada
É mais que a madrugada
E foi por ela
Que o galo cocorocô
Que o galo cocorocõ...♫

Autoria: Caetano Veloso

Você já beijou uma pantera?




" Essa mulher pensa que é uma pantera

e às vezes quando fazemos amor
ela rosna e funga
e seus cabelos se soltam
e por trás deles ela me olha
e me mostra suas presas
mas eu a beijo de qualquer jeito e continuo amando.
você já beijou uma pantera?
você já viu uma pantera fêmea se deliciando
com o ato do amor?
você nunca amou, meu amigo.
você com suas esquilas e tâmias
e elefantas e ovelhas.
você tem que dormir com uma pantera
você nunca mais vai querer
esquilas, tâmias, elefantas, ovelhas, raposas,
carcajus,
nada mais a não ser a pantera fêmea
a pantera fêmea atravessando o quarto
a pantera fêmea atravessando a sua alma,
todas as outras canções de amor são mentiras
quando aquela pele macia e escura vier em sua direção
e o céu desabar sobre suas costas,
a pantera fêmea é o sonho se realizando
e não há volta
ou desejo de –
aquela pele sobre a tua,
a busca terminada
e você aprisionado nos olhos de uma pantera."



Poema do livro "O amor é um cão dos diabos". 

 Charles Bukowski 

Artista Jorge Gouvea

Charles Bukowski

Caí em meu patético período de desligamento. Muitas vezes, diante de seres humanos bons e maus igualmente, meus sentidos simplesmente se desligam, se cansam, eu desisto. Sou educado. Balanço a cabeça. Finjo entender, porque não quero magoar ninguém. Este é o único ponto fraco que tem me levado à maioria das encrencas. Tentando ser bom com os outros, muitas vezes tenho a alma reduzida a uma espécie de pasta espiritual. Deixa pra lá. Meu cérebro se tranca. Eu escuto. Eu respondo. E eles são broncos demais para perceber que não estou mais ali.

Blackbird



Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise

Blackbird singing in the dead of night
Take these sunken eyes and learn to see
All your life
You were only waiting for this moment to be free

Blackbird, fly, blackbird, fly
Into the light of the dark black night

You were only waiting for this moment to arise
Blackbird, fly, blackbird, fly
Into the light of the dark black night

Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise
You were only waiting for this moment to arise
You were only waiting for this moment to arise


Composição: McCartney / John Lennon

Entre as colinas

Quando vos sentardes à sombra fresca 
dos álamos brancos, 
partilhando da paz e da serenidade dos campos 
e dos prados distantes, 
então que vosso coração diga em silêncio: 
"Deus repousa na Razão". 
 E quando bramir a tempestade, 
e o vento poderoso sacudir a floresta, 
e o trovão e o relâmpago proclamarem 
a majestade do céu, 
então que vosso coração diga 
com temor e respeito: 
"Deus age na Paixão". 
E já que sois um sopro na esfera de Deus 
e uma folha na floresta de Deus, 
também devereis 
descansar na razão e agir na paixão. 

Gibran

Quando vier a primavera - Alberto Caeiro



Outra amável noite escura da alma -  Grata pela bela contribuição!



 Por Pedro Lamares


Quando vier a Primavera, 
Se eu já estiver morto, 
As flores florirão da mesma maneira 
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. 
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme 
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se soubesse que amanhã morria 
E a Primavera era depois de amanhã, 
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. 
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? 
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; 
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. 
Por isso, se morrer agora, morro contente, 
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. 
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. 
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. 
O que for, quando for, é que será o que é.

A ninfa inconstante

O passado só se faz visível através de um presente fictício — e no entanto toda ficção perecerá. Não restará então do passado mais que a memória pessoal, intransferível. Não me interessa a impostura literária mas a verdade que se diz com palavras que necessariamente vão umas atrás das outras embora expressem ideias simultâneas. Sei que uma frase é sempre uma questão moral. Há uma memória ética? Ou é estética, isto é, seletiva? A memória é outro labirinto em que se entra e às vezes não se sai. Mas são fantásticos, inúmeros, os corredores da memória, fora da qual há um só tempo real que é aquele que se recorda — isto é, eu mesmo agora quando a máquina de escrever é a verdadeira máquina do tempo. Escrever, o que faço agora, não é mais que uma das formas que a memória adota. O que escrevo é o que recordo — o que recordo é o que escrevo. Entre ambas as ações estão as omissões — que são os interstícios, o que resta. Isto é, meu buraco: o espaço do tempo recordado. É tão fácil recordar, tão difícil olvidar... Não é o que diz a canção? Ou diz...? Não me lembro, olvidei. Recordar é gravar num idioma ou outro. Mas olvidar não tem equivalência... O amor é um dédalo delicado que oculta seu centro, um monstro escuro.


Guillermo Cabrera

Hilda Hilst por Maria Bethânia



"A minha casa é guardiã do meu corpo
e protetora de todas minhas ardências
E transmutem palavras, paixão e veemência
e minha boca se faz fonte de prata

Ainda que eu grite a casa que só existo
para sorver a água da tua boca
a minha casa Dionísio te lamenta
e manda que eu te pergunte assim de frente:

Há uma mulher que canta ensolarada
e que sonora múltipla argonauta,
porque recusas amor e permanece?"


Tenta-me de novo


E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me. 

Hilda Hilst  

Libélula

Eu me desnudo
todos os dias -
dos meus medos
meus quereres
todos sentimentos
para quem quiser
ver ou não ver
compreender
ou nada querer...
Sou assim,
transparente
como a libélula -
chego pertinho
mas não deixo
nada e ninguém
me tocar...

_ Mô Schnepfleitner

O silêncio das almas

 Eu não quero ser o destino  Prefiro ser o caminho.  Eu não quero ser despedida  Prefiro ser reencontro.  Eu não quero ser ponto final  Pref...