Utopia e Barbárie

 Pela manhã, bem cedo, joguei às rolinhas arroz branco cozido e permaneci por alguns instantes a fitá-las. Panela na mão, parado sobre o capim molhado,  pensei no filme visto na noite anterior,   Utopia e barbárie, documentário de Silvio Tendler, obra que visita os sonhos e as decepções de uma geração, nascida logo depois da Segunda Guerra Mundial, na qual me incluo. Diante do espectador se desenrola o que poderíamos chamar de “filme de horror”, revelando a pior face do ser humano, principalmente daqueles que orquestraram golpes contra as democracias no mundo todo, sobretudo na América Latina, reduto de sangrentos ditadores. Região do planeta que perdeu um homem notável, Pepe Mujica. Qual a relação, entretanto, entre os pássaros e os protagonistas dos horrores perpetrados contra a dignidade humana? Representantes do reino animal,  bicando sossegadamente os grãos de arroz, nesta manhã de  quarta-feira, seriam incapazes de impor-se diante de seus semelhantes de forma calculada e sórdida,  mediante a prática da tortura. O ser humano, por outro lado, que se utiliza do fulgor da inteligência,  usa-a da forma mais cruel e arbitrária. E não me refiro aqui apenas à tortura física, mas, também, aos danos morais e éticos dirigidos àqueles que pensam diferente. E pensar diferente é um luxo perigoso, muitas vezes pago com a própria vida. O ex-presidente uruguaio deixou grandes ensinamentos acerca desta lição.


Manoel Magalhães 

Artista plástico, jornalista, escritor, diretor e roteirista de cinema 

O silêncio das almas

 Eu não quero ser o destino  Prefiro ser o caminho.  Eu não quero ser despedida  Prefiro ser reencontro.  Eu não quero ser ponto final  Pref...