O amor

"O que muitas pessoas chamam de amar consiste em escolher uma mulher e casar com ela. Eles escolheram-na, eu juro, eu vi-os. Como se você pudesse escolher no amor, como se não fosse um raio que te quebrasse os ossos e te deixasse estaqueado no meio do quintal. Você vai dizer que a escolheram porque a amam, eu acho que é ao contrário. Beatriz não é escolhida, Julieta não é escolhida. Você não escolhe a chuva que vai te calar até aos ossos quando você sair de um concerto."


Um texto de Julio Cortázar, trecho de Rayuela.


O que amo nas tuas mãos



o que amo nas tuas mãos ─
perdê-las
e perdendo-as buscá-las à curva, como quem
as pressentisse apenas, como as
perscrutasse num
tear de água

mar becker 

O vento não me deixa esquecer


Entra pela janela do meu quarto, que fica bem ao lado da pitangueira,  um frescor de primavera.  Um perfume doce, refrescante e suave que me faz espirrar. Infelizmente minhas alergias chegam antes da beleza da cena. 
Mas não impedem a nostalgia das lembranças de minha infância e de meus irmãos no Laranjal. 
Esse cheiro de manhã de primavera , onde brincávamos na frente de casa. 
Um perfume de alegria, de magia e felicidade 
Naquele quintal tudo acontecia.  Muitas crianças,  aventuras, brincadeiras e risadas. 
Essa brisa perfumada cheia de lembranças carinhosas e saudosas. 
Mesmo com pouca memória, de alguma forma, o vento não me deixa esquecer que em certos momentos minha  infancia foi muito feliz. 











O que é que há


 O que é que há

O que é que tá

Se passando com essa cabeça

O que é que há

O que é que tá

Me faltando pra que eu te conheça melhor

Pra que eu te receba sem choque

Pra que eu te perceba no toque das mãos

Em seu coração

O que é que há

Porque é que há

Tanto tempo você não procura meu ombro

Porque será

Porque será

Que esse fogo não queima o que tem pra queimar

Que a gente não ama o que tem pra se amar

Que o Sol tá se pondo

E a gente não larga essa angústia do olhar

Telefona, não deixa que eu fuja

Me ocupa os espaços vazios

Me arranca dessa ansiedade

Me acolhe, me acalma

Em teus braços macios

O que é que há

O que é que tá

Se passando com minha cabeça

O que é que há

Telefona, não deixa que eu fuja

Me ocupa os espaços vazios

Me arranca dessa ansiedade

Me acolhe, me acalma

Em teus braços macios

O que é que há

O que é que há

O que é que há

Deixa-me seguir para o mar


Tenta esquecer-me... Ser lembrado é como

evocar-se um fantasma... Deixa-me ser

o que sou, o que sempre fui, um rio que vai fluindo...

Em vão, em minhas margens cantarão as horas,

me recamarei de estrelas como um manto real,

me bordarei de nuvens e de asas,

às vezes virão em mim as crianças banhar-se...

Um espelho não guarda as coisas refletidas!

E o meu destino é seguir... é seguir para o Mar, as imagens perdendo no caminho...

Deixa-me fluir, passar, cantar...

toda a tristeza dos rios é não poderem parar!


Mario Quintana

Utopia e Barbárie

 Pela manhã, bem cedo, joguei às rolinhas arroz branco cozido e permaneci por alguns instantes a fitá-las. Panela na mão, parado sobre o capim molhado,  pensei no filme visto na noite anterior,   Utopia e barbárie, documentário de Silvio Tendler, obra que visita os sonhos e as decepções de uma geração, nascida logo depois da Segunda Guerra Mundial, na qual me incluo. Diante do espectador se desenrola o que poderíamos chamar de “filme de horror”, revelando a pior face do ser humano, principalmente daqueles que orquestraram golpes contra as democracias no mundo todo, sobretudo na América Latina, reduto de sangrentos ditadores. Região do planeta que perdeu um homem notável, Pepe Mujica. Qual a relação, entretanto, entre os pássaros e os protagonistas dos horrores perpetrados contra a dignidade humana? Representantes do reino animal,  bicando sossegadamente os grãos de arroz, nesta manhã de  quarta-feira, seriam incapazes de impor-se diante de seus semelhantes de forma calculada e sórdida,  mediante a prática da tortura. O ser humano, por outro lado, que se utiliza do fulgor da inteligência,  usa-a da forma mais cruel e arbitrária. E não me refiro aqui apenas à tortura física, mas, também, aos danos morais e éticos dirigidos àqueles que pensam diferente. E pensar diferente é um luxo perigoso, muitas vezes pago com a própria vida. O ex-presidente uruguaio deixou grandes ensinamentos acerca desta lição.


Manoel Magalhães 

Artista plástico, jornalista, escritor, diretor e roteirista de cinema 

Hoje. Amanhã eu volto. Ou deixo-me lá...

 Hoje não estou cá. Fui ali sozinha acompanhada de mim. Ausentei-me comigo e sentei-me num canto sossegada. Onde as palavras não apetecem e o silêncio ecoa. Onde a luz se apaga e o escuro se impõe. 


Hoje não estou cá. Deixei-me aqui e fui lá. Sozinha sem o meu eu. Acompanhada da escuridão e da ausência. Da saudade e da impotência. 


Hoje. Amanhã eu volto.

Ou deixo-me lá... 


Rita Leston

Rayuela


"Toco tu boca, con un dedo toco el borde de tu boca, voy dibujándola como si saliera de mi mano, como si por primera vez tu boca se entreabriera, y me basta cerrar los ojos para deshacerlo todo y recomenzar, hago nacer cada vez la boca que deseo, la boca que mi mano elige y te dibuja en la cara, una boca elegida entre todas, con soberana libertad elegida por mí para dibujarla con mi mano en tu cara, y que por un azar que no busco comprender coincide exactamente con tu boca que sonríe por debajo de la que mi mano te dibuja. Me miras, de cerca me miras, cada vez más de cerca y entonces jugamos al cíclope, nos miramos cada vez más de cerca y los ojos se agrandan, se acercan entre sí, se superponen y los cíclopes se miran, respirando confundidos, las bocas se encuentran y luchan tibiamente, mordiéndose con los labios, apoyando apenas la lengua en los dientes, jugando en sus recintos donde un aire pesado va y viene con perfume viejo y un silencio. Entonces mis manos buscan hundirse en tu pelo, acariciar lentamente la profundidad de tu pelo mientras nos besamos como si tuviéramos la boca llena de flores o de peces, de movimientos vivos, de fragancia oscura. Y si nos mordemos el dolor es dulce, y si nos ahogamos en un breve y terrible absorber simultáneo de aliento, esa instantánea muerte es bella. Y hay una sola saliva y un solo sabor a fruta madura, ...  y yo te siento temblar contra mí como una luna en el agua. "

Julio Cortázar

áqua-louca, tara que tem imã

"... Pedra que lasca seu brilho

E que queima no lábio um quilate de mel

E que deixa na boca, melante, um gosto

De língua no céu..."

Jade /João Bosco


Sou as promessas que se escondem


 Sou as promessas que se escondem 

Atrás de meus lábios 

De segunda a sexta 

Lembre-se disso 

No próximo domingo 

Quando nos encontrarmos novamente

No meio das tempestades 

Corpos de nuvens esculpidas pelo sol 

Embaladas pelo vento 

Desaguaremos e guardaremos 

Mais uma vez em nós os segredos 

De todos os oceanos 


Daniela Fantin


Do amor que tece sonhos

 Ando a tecer sonhos

a trançar redes de pescador

quem sabe pesco a lua

quem sabe enlaço estrelas


Ando a tecer purezas

com elas bordo sorrisos

nos corações desavisados

e amores em lábios

pintados de vermelho!


Ando a tecer lugares

onde a coruja encantada

canta nos sinos de igrejas

anunciando as vidas que passam

para o outro lado do céu


Ando a tecer cabanas

para que as almas que viajam

possam encontrar lares

nos lados de lá do firmamento


Ando a tecer mãos

para que juntas se enlacem

para que juntas caminhem

para que unidas se apoiem

e sigam o sagrado caminho

do amor que tece sonhos

que enlaça estrelas

que tece purezas....


Rose Ponce 

Pará Mirim Poty

Primeiro frio do ano

 há qualquer coisa de partir o coração nas chuvas muito finas

sempre amei palavras que resistem à pele última da legibilidade

como também amo a estrela cruel que descubro lendo lábios, quando no frio o hálito anuvia a boca dos que falam muito baixo

se a penumbra ao tocar a água fizesse música 

seria a minha


Mar Becker 


(três fragmentos para o primeiro frio do ano, 2023/25)

Um prego em meu peito

 Penduraram meu corpo na parede 

um prego em meu peito

para que ele não voe


emoldurada ao lado da estante

curvada ao tempo da espera 

ruminando os silêncios dos dias 

queimando nas noites sem chamas 

soterrada em memórias acumuladas 


mas conservaram meus dedos 

para que eu veja os livros 

mas não os alcance


mas conservaram meus olhos 

diante da janela 

para que eu veja o mar

parado num mesmo instante

e não o esqueça 

porque esquecer é luxo. 


Daniela Fantin

Me quero tua

 me quero tua na minha escrita

fazer-te colcha 

ao amarrar palavras, 

mas vou, vá, voa, 

que o amor é livre


me quero tua nos fios da vida 

teus meus cabelos, 

meus teus pelos, 

mas vou, vá, voa, 

que o amor é livre 


me quero tua na alma confessa 

quando entra e entre 

se perde e se prende 

em calma e pressa, 

côncavo com convexo, 

esterno com esterno, 

plexo com plexo, 

mas vou, vá, voa 

que o amor é livre


na pele da flor me quero tua 

enquanto o dito se costurar ao gesto, 

enquanto a carne se debruçar a ternura,

me quero tua,

me quero tua, 

mas só enquanto houver ar

para habitarmos céu e fundura, 

porque o amor, 

o amor é livre. 


Daniela Fantin


A moça tecelã


"E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.

Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins.  Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela."

Marina Colasanti

Gosto quando me deito de bruços

 gosto quando me deito de bruços 

e tu te inclinas, em seguida

e me olhas


gosto porque teu olhar se demora, e é como

quisesses ler os sinais


as pintas

as marcas de nascença


tu, que não te curvas a ninguém

nessa hora tu és homem inteiro curvado

sobre meu corpo


detido


dizendo que em outros tempos

em minhas costas um adivinho teria previsto um

dia de fim


uma cidade tomada


---


(reescrita, caminhos; os antigos e os guardados, 2017/21)


Mar Becker 

Sou animal de volúpia

 Sou animal de volúpia 

Fervendo líquidos 

Farejando cheiros 

Decantando desejos 


Sou umidade entre as pernas 

Pelos a perfurar peles 

Sou tato, paladar e olfato 


Sou feita de cera 

Ardendo inteira em pleno verão 

Felina que alisa 

Se esfrega, faz manha 

Lambe, lambe, depois arranha. 


Daniela Fantin


Tuas verdades

Quero todas tuas verdades

Não me satisfaz mais 

Só a  cretina 

Quero a outra 

A  sublime 

Quero todas as belezas 

A leveza 

O segredo mais sujo

O não dito  

O feio 

O incompreendido 

O que nos cala fundo 

Quero também a paz

A voz do silêncio 

O beijo mais demorado 

O abraço apertado com nosso suspiro profundo 

Nosso olhar de entendimento 

Quase terno 

A leitura 

A loucura de Penny Dreadful e a serenidade de  Loreena  Mckennitt

A delicadeza da borboleta 

A fúria do búfalo 

O ronronar da leoa 

O rugir do tigre 

O vômito 

O gozo 

Suor e urina

Sangue 

Arrepio 

A mão suave na garganta 

A língua 

A navalha 

Gemido e grito 

Lágrima e riso 

Quero o êxtase 

A calmaria 

O olho no olho 

Teu sono profundo 

Tua dualidade 

Quero tudo 

Até os ossos. 




The Glory

 "Não estou procurando um príncipe. Não quero um príncipe mas  um carrasco que se junte a mim na minha dança de espadas "

O silêncio das almas

 Eu não quero ser o destino  Prefiro ser o caminho.  Eu não quero ser despedida  Prefiro ser reencontro.  Eu não quero ser ponto final  Pref...