Quando o Amor Vacila



Eu sei que atrás deste universo de aparências,

Das diferenças todas,
A esperança é preservada.
Nas xícaras sujas de ontem

O café de cada manhã é servido.
Mas existe uma palavra que não suporto ouvir,
E dela não me conformo.
Eu acredito em tudo,

Mas eu quero você agora.
Eu te amo pelas tuas faltas,

Pelo teu corpo marcado,
Pelas tuas cicatrizes,
Pelas tuas loucuras todas, minha vida.
Eu amo as tuas mãos,

Mesmo que por causa delas
Eu não saiba o que fazer das minhas.
Amo teu jogo triste.
As tuas roupas sujas

é aqui em casa que eu lavo.
Eu amo a tua alegria.
Mesmo fora de si,

Eu te amo pela tua essência.
Até pelo que você poderia ter sido,
Se a maré das circunstâncias
Não tivesse te banhado
Nas águas do equívoco.
Eu te amo nas horas infernais

E na vida sem tempo, quando,
Sozinha, bordo mais uma toalha
De fim de semana.
Eu te amo pelas crianças e futuras rugas.
Eu te amo pelas tuas ilusões perdidas

E pelos teus sonhos inúteis.
Amo teu sistema de vida e morte.
Eu te amo pelo que se repete

E que nunca é igual.
Eu te amo pelas tuas entradas,

Saídas e bandeiras.
Eu te amo desde os teus pés

Até o que te escapa.
Eu te amo de alma para alma.

E mais que as palavras,
Ainda que seja através delas
Que eu me defenda,
Quando digo que te amo
Mais que o silêncio dos momentos difíceis,
Quando o próprio amor
Vacila.

O silêncio dos teus gemidos




Que se afastem de mim os amores calmos
que nada fazem tremer
eu quero a loucura das paixões arrebatadoras
e do amor que faz furação
quero gestos alucinados enquanto
toco no teu sexo
e ouvir a noite toda o silêncio dos teus gemidos
dizem por aí
que o amor acabou
pura mentira
ele mal começou.


Roge Weslen

Se

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;
Se és capaz de pensar –sem que a isso só te atires,
De sonhar –sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;
Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: “Persiste!”;
Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais –tu serás um homem, ó meu filho!

 Rudyard Kipling 

"E o nosso mundo, Clarice?


Clarice
É com emoção que lhe escrevo pois tudo o que você propõe tem sempre essa explosão dolorosa. É uma angústia terrivelmente feminina, dolorosa, abafada, desesperada e guardada.


Não este, pelas circunstâncias obrigatoriamente político, polêmico, contundente. Mas aquele mundo que nos fala Tchecov: onde repousaremos, onde nos descontrairemos? Ai, Clarice, a nossa geração não o verá. Quando eu tinha quinze anos pensava alucinadamente que minha geração desfaria o nó. Nossa geração falhou, numa melancolia de ‘canção sem palavra’, tão comum no século XIX. O amor no século XX é a justiça social. E Cristo que nos entenda." 

Fernanda Montenegro.


Fernanda Montenegro ‘Carta’, em “Correspondências”, de Clarice Lispector.





O despertar

Senhor
A gaiola se tornou pássaro
e voou
e meu coração está louco
porque uiva para a morte
e sorri detrás do vento
para meus delírios

Que farei com o medo
Que farei com o medo

Já não dança a luz em meu sorriso
nem as estações queimam pombas em minhas idéias
Minhas mãos ficaram nuas
e foram aonde a morte
ensina os mortos a viver

Senhor
O ar me castiga o ser
Detrás do ar existem monstros
que bebem meu sangue

É o desastre
É a hora do vazio não vazio
É o instante de pôr ferrolho nos lábios
ouvir os condenados a gritar
contemplar cada um de meus nomes
enforcados no nada

Senhor
Tenho vinte anos
Também meus olhos têm vinte anos
e contudo não dizem nada

Senhor
Consumei minha vida num instante
A última inocência explodiu
Agora é o nunca jamais ou simplesmente foi

Por que não me suicido diante do espelho
e desapareço para reaparecer no mar
onde um grande barco me esperaria
com as luzes acesas?

Por que não extraio minhas veias
e faço com elas uma escada
para fugir ao outro lado da noite?

O princípio deu à luz o fim
Tudo continuará igual
Os sorrisos gastos
O interesse interessado
As gesticulações que arremedam o amor
Tudo continuará igual

Mas meus braços insistem em abraçar o mundo
Porque ainda não lhes ensinaram
que já é demasiado tarde

Senhor
Expulsa os féretros de meu sangue

Recordo minha infância
quando eu era uma anciã
As flores morriam em minhas mãos
porque a dança selvagem da alegria lhes destruía o coração
Recordo as negras manhãs de sol
quando era criança
quer dizer ontem
quer dizer faz séculos

Senhor
A gaiola se tornou pássaro
e devorou minhas esperanças

Senhor
A gaiola se tornou pássaro
Que farei com o medo

.
 Alejandra Pizarnik

O cântico negro


PEÇO SILÊNCIO

Agora me deixem tranquilo.
Agora se acostumem sem mim.

Eu vou cerrar os meus olhos.
Somente quero cinco coisas,
cinco raízes preferidas.

Uma é o amor sem fim.
A segunda é ver o outono.
Não posso ser sem que as folhas
voem e voltem à terra.

O terceiro é o grave inverno,
a chuva que amei, a carícia
de fogo no frio silvestre.

Em quarto lugar o verão
redondo como uma melancia.

A quinta coisa são teus olhos,
Matilde minha, bem-amada,
não quero dormir sem teus olhos,
não quero ser sem que me olhes:
eu mudo a primavera
para que me sigas olhando.
Amigos, isso é quanto quero.
É quase nada e quase tudo.

Agora se querem, podem ir.
Vivi tanto que um dia
terão de por força me esquecer,
apagando-me do quadro negro:
Meu coração foi interminável.

Porém, por que peço silêncio
não creiam que vou morrer:
passa comigo o contrário:
sucede que vou viver.

Sucede que sou e que sigo.
Não será, pois lá bem dentro
de mim crescerão cereais,
primeiro os grãos que rompem
a terra para ver a luz,
porém, a mãe-terra é escura:
e dentro de mim sou escuro:
sou como um poço em cujas águas
a noite deixa suas estrelas
e segue sozinha pelo campo.

Sucede que tanto vivi
que quero viver outro tanto.

Nunca me senti tão sonoro,
nunca tive tantos beijos.

Agora, como sempre, é cedo.
Voa a luz com suas abelhas.

Me deixem só com o dia.
Peço licença para nascer.

Neruda

Aceitar o silêncio como quem aceita um nome de batismo

"Ando aceitando a bondade dos meus dias como quem aceita uma fatia de bolo de laranja, com simplicidade e sem grandes questionamentos. Talvez ainda haja no fundo do espelho uma semente de teu olhar magoado. Eu o sinto como sinto o cheiro de café vindo da cozinha: familiar, quente, vaporoso e fugitivo. Há muitas palavras dilaceradas guardadas em tua caixa de música, eu já não ouço nada, ando aceitando o silêncio como quem aceita o nome de batismo".

Mari Becker

Dona da minha cabeça


Fado da Saudade


O despertar

Senhor
A gaiola se tornou pássaro
e voou
e meu coração está louco
porque uiva para a morte
e sorri detrás do vento
para meus delírios

Que farei com o medo
Que farei com o medo

Já não dança a luz em meu sorriso
nem as estações queimam pombas em minhas idéias
Minhas mãos ficaram nuas
e foram aonde a morte
ensina os mortos a viver

Senhor
O ar me castiga o ser
Detrás do ar existem monstros
que bebem meu sangue

É o desastre
É a hora do vazio não vazio
É o instante de pôr ferrolho nos lábios
ouvir os condenados a gritar
contemplar cada um de meus nomes
enforcados no nada

Senhor
Tenho vinte anos
Também meus olhos têm vinte anos
e contudo não dizem nada

Senhor
Consumei minha vida num instante
A última inocência explodiu
Agora é o nunca jamais ou simplesmente foi

Por que não me suicido diante do espelho
e desapareço para reaparecer no mar
onde um grande barco me esperaria
com as luzes acesas?

Por que não extraio minhas veias
e faço com elas uma escada
para fugir ao outro lado da noite?

O princípio deu à luz o fim
Tudo continuará igual
Os sorrisos gastos
O interesse interessado
As gesticulações que arremedam o amor
Tudo continuará igual

Mas meus braços insistem em abraçar o mundo
Porque ainda não lhes ensinaram
que já é demasiado tarde

Senhor
Expulsa os féretros de meu sangue

Recordo minha infância
quando eu era uma anciã
As flores morriam em minhas mãos
porque a dança selvagem da alegria lhes destruía o coração
Recordo as negras manhãs de sol
quando era criança
quer dizer ontem
quer dizer faz séculos

Senhor
A gaiola se tornou pássaro
e devorou minhas esperanças

Senhor
A gaiola se tornou pássaro
Que farei com o medo


Alejandra Pizarnik

O sal dos meus olhos



outros amaram em mim a mulher que vive

mas a ti peço para amar aquela que está morrendo

na minha voz, as palavras que não sei dizer

nas manhãs, os minutos que seguem logo que acordo
o tempo entre me levantar e ir tomar o café, quando os lábios ainda estão inchados da ferida do sonho

meus braços
minhas mãos à beira das tuas

outros me amaram em terra
mas a ti peço que me ames no mar

e se um dia eu vier a chorar diante de ti, olha-me como quem tivesse devoção por minhas lágrimas

como quem imaginasse que é raro como o nácar
o sal dos meus olhos



mar becker


Cheiram a sal os teus ares


Um sentir sem rosto
casual
Sem cheiro ou toque.
Entendimento e silêncio
Aromas e cores
Florestas 
Passeios por lugares aonde meus pés nunca tocaram
O caldo de legumes não degustado
O cheiro de livros raros, pó e algum desdém
A saudade que consome ás três da (minha)madrugada
Ou no trecho de um livro qualquer
O trajeto
A ironia
Tua voz
Música e um pouco de poesia
Meu calor e o teu frio
Nossa troca
Mistérios
O nunca dito
Um sentir



  

A falta do teu nome nessa língua

que difícil te perder. eu me entregaria ao desalento

emudeceria por uma vida inteira - e nesse tempo talvez aprendesse a linguagem das aves

no fim do verão escreveria cartas de amor às viúvas, como se lhes dizendo que pode haver sentido nisto de esperar a chuva

no lugar de te perder, também eu passaria anos esperando pela descoberta
e catalogação de novas estrelas. entraria para alguma ordem religiosa. faria votos de pobreza, jejuaria

perco-te com mais tristeza do que se visse que depois de dias e noites pendendo à beira de si a rosa de gamoneda cedeu à morte em vez de ceder ao perfume
com mais tristeza descobriria uma língua antiga que não tem registros do teu nome
com mais tristeza reconheceria a falta do teu nome nessa língua do que reconheço hoje como me faltam palavras na minha própria



mar becker
em: um poema do caderno dos lenços. manterei esta versão para a série "amar, ruir", 2020
gamoneda: menção a uma imagem do livro do frio, de antonio gamoneda, o poeta

Amor sou tua



"Se nem tudo contigo são alegrias serenas
Se me dás tanta hora amargurada
Se padeço e te digo em certos dias
Que me quero ir embora por fim cansada
Se me dói o ciúme, se me põe louca de penas
Se anda tanto queixume na minha boca
Meu amor, minha vida, são queixas somente
De alguém que sente que anda sentida
O que digo não faço, o amor continua,
Sei que não posso, amor sou tua"


O fim de um império


gosto quando, deitada de bruços na cama

sinto-te vindo sobre meu corpo, penetrando meu sexo por trás

gosto porque me olhas
porque vens como quem quisesse ler os vestígios de um tempo de inscrição que se fez na minha pele

as pintas, as marcas de nascença

tu, que não te curvas a ninguém

curvado agora sobre meu corpo indecoroso; respirando rente a mim

dizendo-me que em outros tempos em minhas costas um adivinho teria lido a queda de um rei

o fim de um império



mar becker

Passa uma borboleta por diante de mim


Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move.
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.
 Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993)

Pensar fundo é sentir o desdobrar


Ah não poder tirar de mim os olhos,
Os olhos da minh'alma da minh'alma
(Disso a que alma eu chamo)!
Só sei de duas cousas, nelas absorto
Profundamente: eu e o universo,
O universo e o mistério e eu sentindo
O universo e o mistério, apagados
Humanidade, vida, amor, riqueza.

Oh vulgar, oh feliz! Quem sonha mais
Eu ou tu? Tu que vives inconsciente ,
Ignorando este horror que é existir,
Ser perante o pensamento
Que o não resolve em compreensões, tu
Ou eu, que, analisando e discorrendo
E penetrando (...) nas essências,
Cada vez sinto mais desordenado
Meu pensamento louco e sucumbido,
Cada vez sinto mais como se eu,
Sonhando menos, consciência alerta,
Fosse apenas sonhando mais profundo...
E esta ideia nascida do cansaço
E confusão do meu pensar, consigo
Traz horrores inúmeros, porque traz
Matéria nova para o mistério eterno,
Matéria metafísica em que eu
Me perco a analisar.

Pensar fundo é sentir o desdobrar
Do mistério, ver cada pensamento
Resolver em milhões de incompreensões,
Elementos (...)

Oh tortura, tortura, longa tortura!

Fernando Pessoa

Lucy


Eu sei. Eu sei.
Eles são limitados, têm distintas
necessidades e preocupações.

Mas eu os observo e aprendo com eles.
Eu aprecio o pouco que sabem,
que é
tanto.

Eles rosnam mas jamais
se inquietam,
perambulam com uma surpreendente dignidade.
Eles dormem com uma direta simplicidade que
os humanos não são capazes de
entender.

Seus olhos são mais
belos que os nossos olhos.
E eles podem dormir 20 horas
por dia
sem
hesitação ou
remorso.

Quando me sinto
desalentado
tudo o que tenho a fazer
é contemplar os meus gatos
e assim
ressurge-me a coragem.

Eu estudo essas
criaturas.

Os gatos são os meus
mestres.

- Poema "My Cats" de Charles Bukowski

O silêncio das almas

 Eu não quero ser o destino  Prefiro ser o caminho.  Eu não quero ser despedida  Prefiro ser reencontro.  Eu não quero ser ponto final  Pref...