Uma parte de mim

Uma parte de mim ainda agoniza 
Na ausência da tua mão
No vento que leva as folhas caídas
No que alimenta o vento
No ciclo de vida das folhas

Uma parte de mim ainda goza
da febre que trouxeste 
Nas asas de algum deus insensato
Nas fases que a lua entoa
No canto que ninguém ouviu

Uma parte de mim ainda morre
No âmago das inadequações
Nas guerras que ceifam existências
Nas amputações que a vida impõe
Na necessidade de renascer

Uma parte de mim ainda sonha
Essa velha mania de insistir 
Nos versos perdidos no tempo
No encontro das almas aladas
No voo que os abismos trazem.

.

"Quem quiser nascer tem que destruir um mundo" 
hesse, em demian

Insanidade sincera


E acredito
Que devemos mesmo
Ser devorados
Um pelo outro

Na insanidade sincera
No escape da rotina
No mísero detalhe
Um do outro

Pedro Britto

Eu te invento


Eu te invento
como a luz inventa o dia
rainha das tempestades
cigana nômade dos desertos
nave interestelar

eu te invento
além do tempo e espaço
alquimista da razão
senhora dos ventos
a louca das loucas

eu te invento
feito um poema 
que trafega dia a dia
na noite alta das esperas
transbordando emoções
eu te invento
como antídoto inefável
sabor de pele arrepiada
sons intraduzíveis
e olhos de pura sedução

eu te invento
por desejo ou loucura
em breves doses de tormento
e outras tantas de prazeres
que não ouso revelar

eu te invento
como a luz inventa o dia
e quando tudo escurecer
ainda assim, perdido 
eu posso te reinventar.

Valder Valeirão

Sutileza

Uma alma vaga
e esse gosto lento
de aromas indecifráveis
sempre com a mesma cara
e não obstante
o mesmo senso de indecisão

uma calma rara
e o desgosto do tormento
de sonhos insuportáveis
a realidade desampara
o delírio constante
às vésperas da inundação

uma paz forjada
com promessas de vento
e tempestades inevitáveis
a nau que antepara
num breve instante
o mar revolto e a imensidão.

Valder Valeirão 

Favela

Barracos
montam sentinela
na noite.
Balas de sangue
derretem corpos
no ar.
Becos bêbados
sinuosos labirínticos
velam o tempo escasso
de viver. 

— Poema "Favela", de Conceição Evaristo, no livro "Poemas de recordação e outros movimentos". (Editora Malé; 1.ª edição [2017]). 

Plenitude

"A mulher de 40 anos, cansada das aparências, cometerá excessos perfeitos. É mais louca do que a loucura porque não se recrimina de véspera. É ainda mais sábia do que a sabedoria porque não guarda culpa para o dia seguinte."

Devoção e fome


Pois!!!


Caitlyn Siehl

"Não se apaixone por pessoas como eu. Te levarei para museus e parques e monumentos, e te beijarei em cada lugar lindo, para que você nunca consiga voltar sem sentir meu gosto como sangue em sua boca. Te destruirei da maneira mais bonita possível. E,quando eu me for, você finalmente entenderá porque tempestades têm nome de gente."

Este é um poema de amor


tão meigo, tão terno, tão teu…
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu…
E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
o tão famoso e inesperado verso que
te deixará pasmo, surpreso, perplexo…
eu te amo, perdoa-me, eu te amo…



Poeminha Amoroso _ Cora Coralina

E tu tão perto de mim



Hoje estou assim, absorta,
oca de ser sem ti.
Folha caída,
triste de serem tristes os dias
nos becos e avenidas
do meu pensamento errante.
Estou assim a verde-cinza
e nem Caeiro nem Sophia nem Fiama
são chama que me aqueça o instante.
Estou exausta de estar aqui
às portas do inverno, tão longe de ti.
Não sei se te terei contado
que neste exílio sem fim
ainda amo os teus olhos
dos meus tão apartados

e tu tão perto de mim.

LÍDIA BORGES, in GARÇAS (Poética Edições, 2019)




Inquietude e silêncio


Hermann Hesse

(...) Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo, não posso abrir-lhe outro mundo de imagens além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar, a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível seu próprio mundo, e isso é tudo.

— Hermann Hesse, no livro "O Lobo da Estepe". (Editora Record; 1.ª edição [1982]).


O silêncio das almas

 Eu não quero ser o destino  Prefiro ser o caminho.  Eu não quero ser despedida  Prefiro ser reencontro.  Eu não quero ser ponto final  Pref...