SOBRE CERTAS COISAS


Desde pequeno já
tinha apego a certas coisas
Aos pequenos botões puxadores
Puxa! Desde pequeno
tinha excessivo cuidado
com certas coisas
Como os brinquedos 
poucos, quando pequeno
Como os livros mais tarde
na adolescência, minha
fonte de ciência
Se somaram 
a eles os elepês, os discos
em cujo som voava...
Desde pequeno
tinha consciência
do apego a certas coisas
Seria eu assim 
tão mesquinho, “materialista”?
Seria eu assim
capitalista? Porco-chauvinista?
Deixaria de ser bom
como pessoa?
Ou seria eu,
como Pessoa, a quem
“todas essas coisas são...
parte do que sou”?
Eu não sou essas coisas
(diria Drummond)
delas me aposso
e posso me apartar
e com elas me revolto
mas elas são partes de mim

Mario Pinheiro

A morte de celibato

Artista Jorge Gouvea

"A morte do celibato 
Os desejos reprimidos 
A face das trevas 
Em forma de mulher." 

Sandra Hode

CHAMO-TE PORQUE TUDO ESTÁ AINDA NO PRINCÍPIO


Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que eu quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o teu reino antes do tempo venha.
E se derrame sobre a Terra
Em primavera feroz pricipitado.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Eternidade


(...) Amo os grandes rios, pois são profundos como a alma do homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como os sofrimentos dos homens. Amo ainda mais uma coisa de nossos grandes rios: sua eternidade. Sim, rio é uma palavra mágica para conjugar eternidade.

ROSA, João Guimarães, 1908-1967. [Entrevista concedida a] Günter Lorenz. Diálogo com Guimarães Rosa. Itália, Gênova, janeiro de 1965

José Saramago

"Cada um de nós é este pouco e este muito, esta bondade e esta maldade, esta paz e esta guerra, revolta e mansidão".


Uma parte de mim

Uma parte de mim ainda agoniza 
Na ausência da tua mão
No vento que leva as folhas caídas
No que alimenta o vento
No ciclo de vida das folhas

Uma parte de mim ainda goza
da febre que trouxeste 
Nas asas de algum deus insensato
Nas fases que a lua entoa
No canto que ninguém ouviu

Uma parte de mim ainda morre
No âmago das inadequações
Nas guerras que ceifam existências
Nas amputações que a vida impõe
Na necessidade de renascer

Uma parte de mim ainda sonha
Essa velha mania de insistir 
Nos versos perdidos no tempo
No encontro das almas aladas
No voo que os abismos trazem.

.

"Quem quiser nascer tem que destruir um mundo" 
hesse, em demian

Insanidade sincera


E acredito
Que devemos mesmo
Ser devorados
Um pelo outro

Na insanidade sincera
No escape da rotina
No mísero detalhe
Um do outro

Pedro Britto

Eu te invento


Eu te invento
como a luz inventa o dia
rainha das tempestades
cigana nômade dos desertos
nave interestelar

eu te invento
além do tempo e espaço
alquimista da razão
senhora dos ventos
a louca das loucas

eu te invento
feito um poema 
que trafega dia a dia
na noite alta das esperas
transbordando emoções
eu te invento
como antídoto inefável
sabor de pele arrepiada
sons intraduzíveis
e olhos de pura sedução

eu te invento
por desejo ou loucura
em breves doses de tormento
e outras tantas de prazeres
que não ouso revelar

eu te invento
como a luz inventa o dia
e quando tudo escurecer
ainda assim, perdido 
eu posso te reinventar.

Valder Valeirão

Sutileza

Uma alma vaga
e esse gosto lento
de aromas indecifráveis
sempre com a mesma cara
e não obstante
o mesmo senso de indecisão

uma calma rara
e o desgosto do tormento
de sonhos insuportáveis
a realidade desampara
o delírio constante
às vésperas da inundação

uma paz forjada
com promessas de vento
e tempestades inevitáveis
a nau que antepara
num breve instante
o mar revolto e a imensidão.

Valder Valeirão 

Favela

Barracos
montam sentinela
na noite.
Balas de sangue
derretem corpos
no ar.
Becos bêbados
sinuosos labirínticos
velam o tempo escasso
de viver. 

— Poema "Favela", de Conceição Evaristo, no livro "Poemas de recordação e outros movimentos". (Editora Malé; 1.ª edição [2017]). 

Plenitude

"A mulher de 40 anos, cansada das aparências, cometerá excessos perfeitos. É mais louca do que a loucura porque não se recrimina de véspera. É ainda mais sábia do que a sabedoria porque não guarda culpa para o dia seguinte."

Devoção e fome


Pois!!!


Caitlyn Siehl

"Não se apaixone por pessoas como eu. Te levarei para museus e parques e monumentos, e te beijarei em cada lugar lindo, para que você nunca consiga voltar sem sentir meu gosto como sangue em sua boca. Te destruirei da maneira mais bonita possível. E,quando eu me for, você finalmente entenderá porque tempestades têm nome de gente."

Este é um poema de amor


tão meigo, tão terno, tão teu…
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu…
E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
o tão famoso e inesperado verso que
te deixará pasmo, surpreso, perplexo…
eu te amo, perdoa-me, eu te amo…



Poeminha Amoroso _ Cora Coralina

E tu tão perto de mim



Hoje estou assim, absorta,
oca de ser sem ti.
Folha caída,
triste de serem tristes os dias
nos becos e avenidas
do meu pensamento errante.
Estou assim a verde-cinza
e nem Caeiro nem Sophia nem Fiama
são chama que me aqueça o instante.
Estou exausta de estar aqui
às portas do inverno, tão longe de ti.
Não sei se te terei contado
que neste exílio sem fim
ainda amo os teus olhos
dos meus tão apartados

e tu tão perto de mim.

LÍDIA BORGES, in GARÇAS (Poética Edições, 2019)




Inquietude e silêncio


Hermann Hesse

(...) Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo, não posso abrir-lhe outro mundo de imagens além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar, a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível seu próprio mundo, e isso é tudo.

— Hermann Hesse, no livro "O Lobo da Estepe". (Editora Record; 1.ª edição [1982]).


"Que triste ter que escrever uma canção assim'

Deusa Nina Simone em uma apresentação magnifica da música Feelings

Hilda Hilst

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e pessoas sentadas
Voltando (porque tua volta sinto-a num
presságio) acenderei luzes na minha porta e
falaremos só o necessário.

Terás pão e vinho sobre a mesa.

Virás acabrunhado (quem sabe) como o
filho que retorna.

Nesse dia, a lamparina de teu quarto
deixarás que fique acesa a noite inteira.

O amor sobrevive.

E seremos talvez amor e morte ao mesmo
tempo.

Uma saudade

Hoje não me alegram as amendoeiras do horto. Me lembro de ti.
Jorge Luis Borges

Por Valder Valeirão

É preciso amar
para além dos seres e das coisas
como se disso dependesse a vida
o próprio movimento do universo
e não houvesse nada mais importante

mas vivemos submersos
em devaneios de poder e superioridades
trajamos vestes de hipocrisias ancestrais
em ilusões de armaduras intransponíveis
e sorrimos à iniqüidade do que nos tornamos

escravos beneméritos da vaidade
acordamos para a noite eterna
da colheita inevitável do que somos
e sorvemos as dores hipotéticas do mundo
porque gostamos de sentir dor

é preciso amar
para além dos conceitos de amar
como se disso dependesse o existir
e mesmo a morte, senhora dos medos
é de fato a mais bela filha da vida

é preciso versejar
e transpor a voz que se ergue
para dizer que teu verso não é nada
se desprender do óbvio obscuro
e paris planos de vidas em vidas

é preciso sonhar
inda que pareça incerto ou inútil
e erguer voos de humildade
no céu que te dizem não ser
na cegueira antagônica do sentir.

O Barco Bêbado

Quando eu atravessava os Rios impassíveis,
Senti-me libertar dos meus rebocadores.
Cruéis peles-vermelhas com uivos terríveis

Os espetaram nus em postes multicores.

Eu era indiferente à carga que trazia,
Gente, trigo flamengo ou algodão inglês.
Morta a tripulação e finda a algaravia,
Os Rios para mim se abriram de uma vez.

Imerso no furor do marulho oceânico,
No inverno, eu, surdo como um cérebro infantil,
Deslizava, enquanto as Penínsulas em pânico
viam turbilhonar marés de verde e anil.

O vento abençoou minhas manhãs marítimas.
Mais leve que uma rolha eu dancei nos lençóis
das ondas a rolar atrás de suas vítimas,
dez noites, sem pensar nos olhos dos faróis!

Mais doce que as maçãs parecem aos pequenos,
A água verde infiltrou-se no meu casco ao léu
E das manchas azulejantes dos venenos
E vinhos me lavou, livre de leme e arpéu.

Então eu mergulhei nas águas do Poema
do Mar, sarcófago de estrelas, latescente,
Devorando os azuis, onde às vezes – dilema
Lívido – um afogado afunda lentamente;

Onde, tingindo azulidades com quebrantos
E ritmos lentos sob o rutilante albor,
Mais fortes que o álcool, mais vastas que os nossos prantos,
fermentam de amargura as rubéolas do amor!

Conheço os céus crivados de clarões, as trombas,
Ressacas e marés: conheço o entardecer,
A Aurora em explosão como um bando de pombas,
E algumas vezes vi o que o homem quis ver!

Eu vi o sol baixar, sujo de horrores místicos,
Iluminando os longos glaciais;
Como atrizes senis em palcos cabalísticos,
Ondas rolando ao longe os frêmitos de umbrais!

Sonhei que a noite verde em neves alvacentas
Beijava, lenta, o olhar dos mares com mil coros,
Soube a circulação das seivas suculentas
E o acordar louro e azul dos fósforos canoros!

Por meses eu segui, tropel de vacarias
Histéricas, o mar estuprando as areias,
Sem esperar que aos pés de ouro das Marias
Esmorecesse o ardor dos Oceanos sem peias!

Cheguei a visitar as Flóridas perdidas
Com olhos de jaguar florindo em epidermes
De homens! Arco-íris tensos como bridas
No horizonte do mar de glaucos paquidermes.

Vi fermentarem pântanos imensos, ansas
Onde apodrecem Leviatãs distantes!
O desmoronamento da água nas bonanças
E abismos a se abrir no caos, cataratantes!

Geleiras, sóis de prata, ondas e céus cadentes!
Náufragos abissais na tumba dos negrumes,
Onde, pasto de insetos, tombam as serpentes
Dos curvos cipoais, com pérfidos perfumes!

Ah! se as crianças vissem o dourar das ondas,
Áureos peixes do mar azul, peixes cantantes...
– As espumas em flor ninaram minhas rondas
E as brisas da ilusão me alaram por instantes.

Mártir de pólos e de zonas misteriosas,
O mar a soluçar cobria os meus artelhos
Com flores fantasmais de pálidas ventosas
e eu, como uma mulher, me punha de joelhos...

Quase ilha a balouçar entre borras e brados
De gralhas tagarelas com olhar de gelo,
Eu vogava, e por minha rede os afogados
Passavam, a dormir, descendo a contrapelo.

Mas eu, barco perdido em baías e danças,
Lançado no ar sem pássaros pela torrente,
De quem os Monitores e os arpões das Hansas
Não teriam pescado o casco de água ardente;

Livre, fumando em meio às virações inquietas,
Eu que furava o céu violáceo como um muro
Que mancham, acepipe raro aos bons poetas,
Líquens de sol vômitos de azul escuro;

Prancha louca a correr com lúnulas e faíscas
E hipocampos de breu, numa escolta de espuma,
Quando os sóis estivais estilhaçam em riscas
O céu ultramarino e seus funis de bruma;

Eu que tremia ouvindo, ao longe, a estertorar,
O cio dos Behemóts e dos Maelstroms febris,
Fiandeiro sem fim dos marasmos do mar,
Anseio pela Europa e os velhos peitoris!

Eu vi os arquipélagos astrais! e as ilhas
Que o delírio dos céus desvela ao viajor:
– É nas noites sem cor que te esqueces e te ilhas,
Milhão de aves de ouro, ó futuro Vigor?

Sim, chorar eu chorei! São mornas as Auroras!
Toda lua é cruel e todo sol, engano:
O amargo amor opiou de ócios minhas horas.
Ah! que esta quilha rompa! Ah! que me engula o oceano!

Da Europa a água que eu quero é só o charco
Negro e gelado onde, ao crepúsculo violeta,
Um menino tristonho arremesse o seu barco
trêmulo como a asa de uma borboleta.

No meu torpor, não posso, ó vagas, as esteiras
Ultrapassar das naves cheias de algodões,
Nem vencer a altivez das velas e bandeiras,
Nem navegar sob o olho torvo dos pontões.
Arthur Rimbaud

Extraterrena

Para Cecília Meireles

Nós colhíamos flores de hastes muito longas
E cujos nomes nem ao menos conhecíamos…
E nem sequer, também, sabíamos os nossos nomes…
E para quê, se um para o outro éramos Tu, apenas…
Ou quem sabe se a Morte nos houvera bordado
numa tapeçaria
A que o vento emprestasse a vida por um momento?
E por isso os nossos gestos eram ondulantes como as
plantas marinhas
E as nossas palavras como asas suspensas no vento…


Mário Quintana

Precioso


Precioso 

Foi o tempo
Companhia
 permanência 
 carinho
Preciosa 
 lágrima
 troca 
 bronca
 quietude
Teu riso
Um pedaço do teu mundo, 
mesmo sendo tão breve e dosado. 
Teu carinho
Tua história e cultura
Teu humor seco 
 E mais precioso ainda o sorriso raro
Tua amizade
Talvez um pouco de amor
Precioso o "se" e o "talvez"
Preciosa distância, promessas
vontade e desejo. 
Foste como chegaste...
Não sabia da tua vinda
E nada sei da tua volta
Mas entendi naquele momento a despedida, 
O teu silêncio e ausência. 
Não importa se voltará
Já está.




Diferente dos outros silêncios, este nasce a partir do título. Aliás tenho mais de uma sugestão de título, poderia ser " despedida", "Até breve" ou "Partida" entre outros... mas "Precioso" é o mais adequado, sem dúvida. 








Devia ser proibido


A imagem pode conter: céu, noite, crepúsculo e atividades ao ar livre

devia ser proibido
uma saudade tão má
de uma pessoa tão boa
falar, gritar, reclamar
se a nossa voz não ecoa
dizer não vou mais voltar
sumir pelo mundo afora
alguém com tudo pra dar
tirar o seu corpo fora
devia ser proibido
estar do lado de cá
enquanto a lembrança voa
reviver, ter que lembrar
e calar por mais que doa
chorar, não mais respirar (ar)
dizer adeus, ir embora
você partir e ficar
pra outra vida, outra hora
devia ser proibido... "

Alice Ruiz

Alceu Valença - La Belle de Jour / Girassol


Da Calma e do Silêncio

Quando eu morder
a palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano
do verbo,
para assim versejar
o âmago das coisas.

Quando meu olhar
se perder no nada,
por favor,
não me despertem,
quero reter,
no adentro da íris,
a menor sombra,
do ínfimo movimento.

Quando meus pés
abrandarem na marcha,
por favor,
não me forcem.
Caminhar para quê?
Deixem-me quedar,
deixem-me quieta,
na aparente inércia.
Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.

.
Conceição Evaristo

"Os poemas possíveis"

Não era hoje um dia de palavras,
Intenções de poemas ou discursos,
Nem qualquer dos caminhos era nosso.
A definir-nos bastava um acto só,
E já que nas palavras me não salvo,
Diz tu por mim, silêncio, o que não posso.

José Saramago

“Deixa que a minha mão errante adentre atrás, na frente, em cima, embaixo, entre”

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Artista: Jorge Gouvea

Sutileza


Ser esse rio que corre

ingênuo, alheio a todo voo
ser esse rio, tocar tuas margens
e seguir sempre sozinho
ser esse rio e não temer o desfecho
porque todo rio sabe seu fim
ser esse rio que escorre, amor
entre teus seios... teu ventre
ser esse rio quase doce
e ter esse gosto de lágrima
ser esse rio de angústias
inundado de tua ausência
ser esse rio de versos calados
e desejar ser, por fim, deserto.

Valder

Tão antigo ... tão atual...tão pertinente.

“A tua lei não é a lei dos deuses; apenas o capricho ocasional de um homem. Não acredito que tua proclamação tenha tal força que possa substituir as leis não escritas dos costumes e os estatutos infalíveis dos deuses. Porque essas não são leis de hoje, nem de ontem, mas de todos os tempos: ninguém sabe quando apareceram. Não, eu não iria arriscar o castigo dos deuses para satisfazer o orgulho de um pobre rei.”

Antígona, Sófocles, 442 a.C.


Do desejo

Quem és? Perguntei ao desejo.
Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada.

I
Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.

II
Ver-te. Tocar-te. Que fulgor de máscaras.
Que desenhos e rictus na tua cara
Como os frisos veementes dos tapetes antigos.
Que sombrio te tornas se repito
O sinuoso caminho que persigo: um desejo
Sem dono, um adorar-te vívido mas livre.
E que escura me faço se abocanhas de mim
Palavras e resíduos. Me vêm fomes
Agonias de grandes espessuras, embaçadas luas
Facas, tempestade. Ver-te. Tocar-te.
Cordura.
Crueldade.

III
Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

IV
Se eu disser que vi um pássaro
Sobre o teu sexo, deverias crer?
E se não for verdade, em nada mudará o Universo.
Se eu disser que o desejo é Eternidade
Porque o instante arde interminável
Deverias crer? E se não for verdade
Tantos o disseram que talvez possa ser.
No desejo nos vêm sofomanias, adornos
Impudência, pejo. E agora digo que há um pássaro
Voando sobre o Tejo. Por que não posso
Pontilhar de inocência e poesia
Ossos, sangue, carne, o agora
E tudo isso em nós que se fará disforme?
Existe a noite, e existe o breu.
Noite é o velado coração de Deus
Esse que por pudor não mais procuro.
Breu é quando tu te afastas ou dizes
Que viajas, e um sol de gelo
Petrifica-me a cara e desobriga-me
De fidelidade e de conjura. O desejo
Esse da carne, a mim não me faz medo.
Assim como me veio, também não me avassala.
Sabes por quê? Lutei com Aquele.
E dele também não fui lacaia.

Hilda Hilst

Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.
Torquato Neto

O velho..de novo...e de novo...e sempre!!!


Cuidado com aqueles que censuram fácil, eles têm medo daquilo que não conhecem. Cuidado com
aqueles que procuram constantes multidões, eles não são nada sozinhos. Cuidado com o homem
comum, com a mulher comum, cuidado com o amor deles. O amor deles é comum, procura o comum, mas
há genialidade em seu ódio, há bastante genialidade em seu ódio para matar você, para matar
qualquer um. Sem esperar solidão, sem entender solidão eles tentarão destruir qualquer coisa
que seja diferente deles mesmos.

Charles Bukowski - O amor é tudo que nós dissemos que não era.
"há um pássaro azul no meu coração
que quer sair, mas eu sou demasiado duro para ele, e digo, fica aí dentro, não vou deixar ninguém ver-te"

While My Guitar Gently Weeps


Fernando Pessoa

Saudade

Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já não me dói
A antiga e errônea fé
O ontem que a dor deixou
O que deixou alegria
Só porque foi e voou
E hoje é já outro dia.

Clarice Lispector



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Sentimento urgente


Saudade é um pouco como fome

Só passa quando se come a presença

Mas, às vezes, a saudade é tão profunda

 que a presença é pouco

Quer-se absorver a outra pessoa toda

Essa vontade de um ser o outro 

para uma unificação inteira

É um dos sentimentos mais urgentes 

que se tem na vida.


A canção do suicida

 Ontem recebi a notícia da morte precoce de um militante, um colega de luta de minha cidade atual. 
 Em princípio senti uma tristeza por ser jovem e de enfrentamentos, um músico, artista, cheio de sonhos e projetos. Um cara sensível.   
 Depois, as informações mais específicas sobre sua morte, mostraram um lado mais doído e pesado. 
 Hoje meu dia foi de introspecção e reflexões, senti um desconforto, uma sensação de fracasso. Porém nem tinha tanta intimidade ou qualquer proximidade, a não ser a luta por um mundo mais justo. E por esta estranheza de sentimentos e sem entender muito bem o que me deixava inquieta, resolvi silenciar a mente e minhas emoções, na busca pelo entendimento.
 Assim, lembrei de uma das minhas noites escuras, voltei lá no passado, retomei sensações já vividas e doídas. E lá, naquele abismo, em que estive a um passo de cair, aonde olhava para cima e não enxergava possibilidades e olhava para baixo e só via um buraco negro sem fim, nesse sentimento de nada, de vazio odioso, percebi o que estava me inquietando.  
 Era a identificação, a parecência, o reconhecimento da dor. A falta de eternidade.
 E como dói. E Deus, como é difícil. O mundo, com toda sua força, crueldade, preconceitos, vícios, discriminações, esse mundo de pessoas desumanas e egoístas, ele nos invade, nos absorve, nos consome.
Mesmo com todos nossos instrumentos de contraponto, somos atropelados pela crueldade, maldade e indiferença. 
 Sentimos demais. Sentimos até a última gota. Somos assim.
 Então meu camarada, o que nos distanciava em vida, com tua partida nos aproximou. Te entendo. Respeito tua decisão. Odeio julgamentos e não acredito em punições. Acredito em sentimentos. E teu sentir era de uma beleza e sensibilidade em que os olhos deste mundo jamais poderiam enxergar.
  Só quem teve a um passo do abismo poderá compreender.
 E fica um questionamento.... e teus olhos...como veem?
 Talvez se as pessoas conseguissem enxergar melhor ao outro, a dor fosse menor e não definitiva. Talvez.
 É isso. 

KK
  


A Canção do Suicida

Só mais um momento.

Que voltem sempre a cortar-me
a corda.
Há pouco estava tão preparado
e havia já um pouco de eternidade
nas minhas entranhas.

Estendem-me a colher,
esta colher de vida.
Não, quero e já não quero,
deixem-me vomitar sobre mim.

Sei que a vida é boa
e que o mundo é uma taça cheia,
mas a mim não me chega ao sangue,
a mim só me sobe à cabeça.

Aos outros alimenta-os, a mim põe-me doente;
compreendei que há quem a despreze.
Durante pelo menos mil anos
preciso agora fazer dieta.

Rainer Maria Rilke,  "O Livro das Imagens"

   
            
   

O silêncio das almas

 Eu não quero ser o destino  Prefiro ser o caminho.  Eu não quero ser despedida  Prefiro ser reencontro.  Eu não quero ser ponto final  Pref...