A canção do suicida

 Ontem recebi a notícia da morte precoce de um militante, um colega de luta de minha cidade atual. 
 Em princípio senti uma tristeza por ser jovem e de enfrentamentos, um músico, artista, cheio de sonhos e projetos. Um cara sensível.   
 Depois, as informações mais específicas sobre sua morte, mostraram um lado mais doído e pesado. 
 Hoje meu dia foi de introspecção e reflexões, senti um desconforto, uma sensação de fracasso. Porém nem tinha tanta intimidade ou qualquer proximidade, a não ser a luta por um mundo mais justo. E por esta estranheza de sentimentos e sem entender muito bem o que me deixava inquieta, resolvi silenciar a mente e minhas emoções, na busca pelo entendimento.
 Assim, lembrei de uma das minhas noites escuras, voltei lá no passado, retomei sensações já vividas e doídas. E lá, naquele abismo, em que estive a um passo de cair, aonde olhava para cima e não enxergava possibilidades e olhava para baixo e só via um buraco negro sem fim, nesse sentimento de nada, de vazio odioso, percebi o que estava me inquietando.  
 Era a identificação, a parecência, o reconhecimento da dor. A falta de eternidade.
 E como dói. E Deus, como é difícil. O mundo, com toda sua força, crueldade, preconceitos, vícios, discriminações, esse mundo de pessoas desumanas e egoístas, ele nos invade, nos absorve, nos consome.
Mesmo com todos nossos instrumentos de contraponto, somos atropelados pela crueldade, maldade e indiferença. 
 Sentimos demais. Sentimos até a última gota. Somos assim.
 Então meu camarada, o que nos distanciava em vida, com tua partida nos aproximou. Te entendo. Respeito tua decisão. Odeio julgamentos e não acredito em punições. Acredito em sentimentos. E teu sentir era de uma beleza e sensibilidade em que os olhos deste mundo jamais poderiam enxergar.
  Só quem teve a um passo do abismo poderá compreender.
 E fica um questionamento.... e teus olhos...como veem?
 Talvez se as pessoas conseguissem enxergar melhor ao outro, a dor fosse menor e não definitiva. Talvez.
 É isso. 

KK
  


A Canção do Suicida

Só mais um momento.

Que voltem sempre a cortar-me
a corda.
Há pouco estava tão preparado
e havia já um pouco de eternidade
nas minhas entranhas.

Estendem-me a colher,
esta colher de vida.
Não, quero e já não quero,
deixem-me vomitar sobre mim.

Sei que a vida é boa
e que o mundo é uma taça cheia,
mas a mim não me chega ao sangue,
a mim só me sobe à cabeça.

Aos outros alimenta-os, a mim põe-me doente;
compreendei que há quem a despreze.
Durante pelo menos mil anos
preciso agora fazer dieta.

Rainer Maria Rilke,  "O Livro das Imagens"

   
            
   

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