Nenhum lugar é meu



Minhas certezas se alimentam de dúvidas.
E há dias em que me sinto estrangeiro em Montevidéu como seria em qualquer lugar do mundo. 
E, nestes dias, dias sem sol, noites sem lua, nenhum lugar é meu lugar…
…e não consigo me reconhecer em nada nem em ninguém.

Eduardo Galeano

"Ainda bem que existe a Bethânia" como diz um amigo querido...


Madrugadas infinitas

A madrugada, minha companhia constante
Entre pensamentos aflitivos, pandemia por covid 19, o pânico da morte e a inquietude.
A angústia de viver em um país tão rico e tão egoísta. De um povo morador de ilha, ganancioso e medíocre
A dor da humanidade 
O caos em tudo
O caos em mim
Uns dias bem outros não sei 
Sei das madrugadas infinitas
Das noites olhando pela janela 
A negritude e o nada
O vento gelado
A chuva fina e constante
Tu em mim
A vontade de estar em ti
E a certeza da tolice disso tudo
O dia amanhecendo 
Um pouco de paz e sanidade
Mas quem quer a lucidez
Eu quero o caos
Ele me liberta
Me refina
A manhã chega trazendo o ontem
A perspectiva do nada
Não há saída
Ainda não há
Haverá?
Talvez na próxima madrugada





Emergência


Os versos que decorei para ti

O amor estava sob a mesa, mostrando-me seus grandes olhos fixos, seus imperceptíveis segredos noturnos. E sorrindo suavemente enquanto caminhávamos pela calçada em um dia iluminado de outono, em qualquer século. Depois da curva do rio só há mais águas verdes e algumas esperanças esparsas, eu tentava te dizer. Além do oceano só há mais terra, gente e o silêncio das noites claras, pensava em esquecer. Pessoas fazendo as mesmas coisas que se faz cá do outro lado, nestes desfiladeiros de esperas e ausências. Quando a tempestade abrupta despencou sob a terra eu não trazia guarda-chuva e andava de ônibus olhando para a cidade, reparando em suas composições estranhas, sujas, não-ordenadas. Meus pés encharcados, meus cabelos molhados, meus cadernos riscados, meus poemas ruins e esquecidos, as coisas que eu detesto empilhadas enquanto as águas embriagadas de céu saltavam da eternidade, de um lugar que não conheço, nem alcanço. Muito além de nós. Na vertente de rio manso não se vê o fundo, não se conta mais as horas. Tudo é começo, impulso de vida, de prazer. Queria saber o que é e como nasce. Mais tarde, em casa, diante do silêncio das noites invisíveis. Você me oferecia um café, nesse sopro de existência teus olhos eram os faróis que conduziam. Eu te oferecia uns versos que decorei. Ainda lembra? "Corridinho" da Adélia. Era assim, de frente: "O amor quer abraçar e não pode/ A multidão em volta / Com seus olhos cediços / Põe cacos de vidro no muro para o amor desistir..." Recitava estas palavras e as minhas mãos falavam aquilo que meus lábios não tinham coragem de dizer, mas deveriam. Tanta coisa que se deve fazer nessa vida. Tanta carta escrita e nunca entregue. Esquece. Ninguém manda mais carta nesse mundo, ninguém lembra da importância dos trens, das chegadas e partidas nas estações. Os trilhos estão quebrados, os maquinistas desempregados, barco sem porto, tempo que varre o mofo, soterrando corpos e mentes. Por isso escrevemos coisas como cartas e se faz coisas como declarações de amor, ridículas, estupidamente ridículas diria Fernando Pessoa, ainda que belas. 
Se eu não fosse tão prosaica ao pensar nestas histórias antigas escritas por seres mortos... Enviaria a bendita carta, assinaria meu nome com essa letra grande, esse perfume grudado nas páginas, beijando as memórias de certo inverno, experimentando um aroma que quando se misturava ao teu naquelas manhãs de junho inventava segredos que não ouso contar. O frio lá fora, um alvorecer entre pernas e lábios, dizendo-me tudo. Barulho de trens, explicações nas cartas: Com todo carinho do mundo e tantas coisas para dizer. Escrever é só uma flor jogada ao mar, uma forma de não me calar para sempre, um jeito de dizer do amor, da coragem, da solidão. E publicar... acho que publicar é só uma maneira de evitar a decomposição da matéria orgânica, de criar laços singulares com quem lê, de abrir possibilidades de debate, democrático, onírico.
Essas coisas de gente clichê, de gente comum que enxerga pouco além da esquina ou além do próprio egoísmo. Ah, eu sei como dói abrir as verdades, revirar as misérias, esbarrar nas mentiras em uma tarde imensa de domingo. Só me resta te dizer que vale a pena, sim. Tem algumas coisas bem bonitas dentro das palavras, no vértice da vida que dança.

Giovana Carlos


Lenda do boto

Jorge Gouvea


"Pintura baseada na lenda do boto. Lenda esta, do norte do Brasil, que segundo ela, em noites de lua cheia o boto (animal inteligente e semelhante ao golfinho) surge dos rios amazônicos transformado num homem belo e sedutor, usando sempre roupas brancas e um chapéu na cabeça, com o propósito de atrair as moças para a beira do rio, a fim de ter relaçoes sexuais com elas para logo em seguida, engravidá-las."

Previne-te

És a nova pessoa atraída a mim?
Para começar previne-te, sou certamente bem diferente do que supões;
Supões que encontrarás em mim teu ideal?
Achas tão fácil me tornar teu amante?
Achas que minha amizade seria pura satisfação?
Achas que sou confiável e fiel?
Não vês além desta fachada, deste meu modo suave e tolerante?
Supões-te avançando em terreno sólido para um homem heroico real?
Não pensaste Oh sonhador que pode ser tudo maia, ilusão?

(WALT WHITMAN, 'Cálamo' - In: "Folhas de Relva".)


Através de um Espelho

"Traçamos um círculo imaginário ao nosso redor para afastar aquilo que não faça parte do nosso jogo secreto. Cada vez que a vida rompe esse círculo, os jogos se tornam insignificantes e ridículos. E então construímos um novo círculo e novas defesas."

"Através de um Espelho", 1961 •
Dir.: Ingmar Bergman.

Tédio

Então percebi, há algum tempo, que estava totalmente liberta do equívoco que me acompanhava há uns 20 anos.
Estranhamente não sentia mais nada. Era um tanto faz.
As conversas antes encantadoras foram perdendo o charme
As histórias antes, interessantes hoje não tinham mais unidade ou identificação. Aliás em algumas situações, sentia um enjôo. E não aqueles da bulimia, não os vômitos dos refinamentos, muito pelo contrário. Eram náuseas de tédio.
Mas algumas vezes insisti. Quem não gosta de uma bela história? Enfim...
Muitos desencontros e confesso, muitos eu causei. Não quis ir. Não tinha vontade. Arrumava desculpas, mentiras, afinal, sou maquiadora de diabos...
Eu me espantava pela indiferença que sentia.
Os cansaços da rotina virtual como se fosse um casamento de anos...
A obrigação de responder. Não queria mais aquilo.
Não sentia mais.
Não sinto mais....
A bizarrice no sexo estava me incomodando. Nada de puritanismo. Longe disso. Em princípio parecia um fetiche interessante. Depois vi que era algo que  necessitava de reciprocidade.  
Não era mais meu caso, nosso caso portanto.
Em certos momentos pensei e expressei
_ Não sinto absolutamente nada por ninguém!
Mas não era assim. Era por ele! Era ele.
Ou seja não era mais ele!
Hoje existe um nada.  
Estranho mais o fato de um dia ter acreditado em algo sem sintonia ou entendimento.
Não me sinto triste. Nem lamento. Não há dor.
Não vale a depressão ou o quase suicídio como foi dito.
 E de novo o tanto faz!
Só a reflexão: Não sobrou absolutamente nada! 
Não houve ataque de fúria, houve só uma exaustão exatamente nestas palavras
" Vai a merda!"
Mas a fragilidade e o ego masculino precisam de enfeites. Que seja! Se assim o satisfaz. 
Agora realmente livre das exaustivas
doses de veneno. 
E ao contrário do que foi dito " tudo muda, pode ter certeza que mudou. Hoje eu tenho a opção.
É bem diferente. Eu digo não. Eu não quero.
Há liberdade e tranquilidade na certeza de nunca mais permitir que alguém seja mais importante do que eu ou do que eu quero! Simples assim!

Sheela

Toda mãe é uma catedral...

quando ficamos sem casa, vi a mãe inclinar-se sobre nós, eu e meus irmãos. vi, e ela abria os braços à volta - como arbustos

o copado de uma árvore na qual o outono ia tardando sempre um dia mais
a chegar

.

quando ficamos sem ter o que comer, vi a mãe em torno do fogão. preparava a sopa, mantinha-se à beira do fogo

as palavras desprendendo-se dos seus lábios com uma tal aura de sonho

era na mãe uma mulher - e ia soprando canções
e tentava esquecer que amar envolve tanto de brutalidade

(querer que um caldo ralo feito de batata e sal engane a fome
de quatro bocas)

.

quando ficamos sem fé e sem futuro, vi a mãe erguer uma cabaninha
e nos chamando pra brincar no meio da sala. as cadeiras, uma em cada canto, e o cobertor estendido em cima

poderia ser uma igreja qualquer

(digamos, aquela onde a falta de fiéis tivesse levado ao cancelamento das missas)

toda mãe é uma catedral que, tendo se libertado do culto à tristeza de um deus
pode enfim abrigar essa tristeza
de gente


Marceli Andresa Becker

Bailarinas ao vento

Fotografia Luís Gaspar

Com o vento as saias balançam em harmonia 
Em uma sincronia criativa e sutil
Há beleza na dança do vento
Leveza e movimento em sua gira
O silêncio nas asas dos pássaros que enfeitam o cenário
No céu azul que beija o mar
O sol na pele de diamante
A luz salienta as marcas em um contraste marrom e branco
Vislumbres de paz e desejo
Uma vontade de pertencer
De ter
De ser
No balanço das saias das bailarinas ao vento.






Penny Dreadfull


Quem sabe...


O poeta


O engano

Sou tua, Deus sabe porque, já que compreendo
Que haverás de abandonar-me, friamente, amanhã,
E que embaixo dos meus olhos, te encanto
Outro encanto o desejo, porém não me defendo.

Espero que isto um dia qualquer se conclua,
Pois intuo, ao instante, o que pensas ou queiras
Com voz indiferente te falo de outras mulheres
E até ensaio o elogio de alguma que foi tua.

Porém tu sabes menos do que eu, e algo orgulhoso
De que te pertence, em teu jogo enganoso
Persistes, com ar de ator dono do papel.

Eu te olho calada com meu doce sorriso,
E quando te entusiasmas, penso: não tenhas pressa
Não es tu o que me engana, quem me
engana é meu sonho.

Alfonsina Storni

Deve chamar-se tristeza

Deve chamar-se tristeza
Isto que não sei que seja
Que me inquieta sem surpresa,
Saudade que não deseja.
Sim, tristeza — mas aquela
Que nasce de conhecer
Que ao longe está uma estrela
E ao perto está não a ter.
Seja o que for, é o que tenho.
Tudo mais é tudo só.
E eu deixo ir o pó que apanho
De entre as mãos ricas de pó.

Fernando Pessoa

Beleza


в υ к о w s к ı

"Eu havia rompido com a religião alguns anos atrás.
Se houvesse alguma verdade por trás dela, era uma verdade que idiotizava as pessoas ou atraía as mais idiotas. E se por acaso a religião não contivesse em si verdade nenhuma, os tolos que nela acreditavam seriam então duplamente idiotas." 

SEI-TE DE COR

Fotografia: No 54, de Adirek M


Sei-te de cor
Porque deixei meus dedos percorrerem
Teu corpo com ânsia e devoção sem fim
E cada traço teu ficou (e)ternamente gravado
Dentro e fora de mim

Sei-te de cor
Porque a tua voz que ainda embala meus sentidos
Trecho de sinfonia de pardais na madrugada
Permaneceu escrita em pautas musicais
Para ao longo da minha vida sempre ser tocada

Sei-te de cor
Porque o vento que não ensinaram a abraçar
E alimenta a minha nostalgia empurra-me veloz
Para os mais recônditos e distantes lugares
Onde tudo continua a falar de nós

Guardei-te de cor
Para preservar as marcas que me deixaste na memória
Confiar que para além de nós cada momento renascia
E que no livro onde juntos escrevemos a nossa história
A palavra "Fim" jamais se escreveria


Alice de Queiroz 


Securas mortais

Arte • © Lesley Oldaker.


"...não é raro encontrar desertos e securas mortais em meio de multidões.”

(José Saramago - "O Evangelho Segundo Jesus Cristo•

Viajei


Noturno

.

Não sou o que te quer. Sou o que desce
a ti, veia por veia, e se derrama
à cata de si mesmo e do que é chama
e em cinza se reúne e se arrefece.

Anoitece contigo. E me anoitece
o lume do que é findo e me reclama.
Abro as mãos no obscuro, toco a trama
que lacuna a lacuna amor se tece.

Repousa em ti o espanto que em mim dói,
noturno. E te revolvo. E estás pousada,
pomba de pura sombra que me rói.

E mordo o teu silêncio corrosivo,
chupo o que flui, amor, sei que estou vivo
e sou teu salto em mim suspenso em nada.

.

Bruno Tolentino

Florbela


Agradecimento


Devo muito
aos que não amo.

O alívio de aceitar
que sejam mais próximos de outrem.

A alegria de não ser eu
o lobo de suas ovelhas.

A paz que tenho com eles
e a liberdade com eles,
isso o amor não pode dar
nem consegue tirar.

Não espero por eles
andando da janela à porta.
Paciente
quase como um relógio de sol,
entendo o que o amor não entende,
perdoo,
o que o amor nunca perdoaria.

Do encontro à carta
não se passa uma eternidade,
mas apenas alguns dias ou semanas.
As viagens com eles são sempre um sucesso,
os concertos assistidos,
as catedrais visitadas,
as paisagens claras.

E quando nos separam
sete colinas e rios
são colinas e rios
bem conhecidos dos mapas.
É mérito deles
eu viver em três dimensões,
num espaço sem lírica e sem retórica,
com um horizonte real porque móvel.
Eles próprios não veem
quanto carregam nas mãos vazias.

“Não lhes devo nada” —
diria o amor
sobre essa questão aberta.

wislawa szymborska

Silêncios



Meu silêncio 
Teu silêncio
Respeito
Distância 
Está tudo bem.
Essa é a verdade
Não há nada além
Nenhum mistério ou segredo
Tudo é o que é
Sem véus
Sem mais
Nem tudo precisa de reticências
Nem tudo precisa de adeus.
Apenas foi
Apenas é.

Kk

Apressa-te amor

Não te fies do tempo nem da eternidade,
que as nuvens me puxam pelos vestidos
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!
Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
o lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te escuto!
Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo…
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te digo…


 Cecília Meireles

Nenhum mar mais forte

Artista Jorge Gouvea

“Nenhum mar mais forte que o mar dos sentimentos, em que ela nadava dentro dele, encrespando, nenhuma onda como as ondas do desejo, nenhuma espuma como a espuma do prazer. Nenhuma areia mais morna que a pele e a areia movediça das carícias. Nenhum sol mais poderoso que sol do desejo, nenhuma neve como a neve de sua resistência derretendo em alegrias azuis, em lugar nenhum uma terra tão rica quanto a carne. Ela dormia, caía em transe, estava perdida, sentia-se renovada, abençoada, transpassada pela felicidade, aquietada, queimada, consumida, purificada, nascida e renascida dentro do ventre da baleia da noite”.


Anaïs Nin

Tudo vive em mim

Tudo vive em mim. Tudo se entranha  
Na minha tumultuada vida. E por isso 
Não te enganas, homem, meu irmão,  
Quando dizes na noite, que só a mim me vejo.  
Vendo-me a mim, a ti. E a esses que passam  
Nas manhãs, carregados de medo, de pobreza,  
O olhar agudo, todos eles em mim,  
Porque o poeta é irmão do escondido das gentes  
Descobre além da aparência, é antes de tudo  
LIVRE, e porisso conhece.
Quando o poeta fala  
Fala do seu quarto, não fala do palanque,  
Não está no comício, não deseja riqueza  
Não barganha, sabe que o ouro é sangue  
Tem os olhos no espírito do homem  
No possível infinito. Sabe de cada um  
A própria fome. E porque é assim, eu te peço:  
Escuta-me. Olha-me. Enquanto vive um poeta  
O homem está vivo.

H.H

Respeito


"Eu não vou à tua igreja falar sobre o espírito da água, soprar a fumaça do incenso ou tocar o tambor, se não me convidaram para isso.
Pois eu posso apresentar os meus respeitos em silêncio,sem interromper aqueles que rezam de outras maneiras.

Também não falo mal dos teus livros sagrados ou dos nomes dos teus deuses.

Ensinaram-me a respeitar o que é alheio, pois sabemos que o mistério está presente em mais formas das que conseguimos compreender e que inúmeros caminhos tem o divino oculto, assim como inúmeros e diferentes são os seus frutos.

O respeito é uma fina linha que cuidamos na ida e na volta.

Não me venha com as tuas mensagens dos irmãos mais velhos, visões crísticas, mensagens apocalípticos, quintas dimensões e aberturas energéticas ou a nova era.
Eu não sei se é fantasia, ficção, medos ou doença da mente tudo isso que as vezes trazem, eu sei que aqui não te foi solicitado, e cuidamos de não colocar uns julgamentos sobre isso.

Cada um é livre de andar a sua vida como gostar e espero encontrar boa medicina, cura para suas necessidades.

Fina é a linha entre as visões do Espírito e as fantasias do sono florido, e o nosso povo se cuida muito de poder manter a sanidade e a seriedade.

Pois quando peço uma instrução em oração, acendo um incenso,elevo meus pensamento tento ser clara com o que peço:
- Saber quando se calar e quando falar, ou seja, sempre a sabedoria. 
Pois como os dedos que estão em nossas mãos,  ainda que diferentes, somos parentes na fonte de origem.
Com amor, fé e sabedoria, a bruxa. 

A bruxa 

Não se apague esta noite


Doce sono


"Nunca dormi de maneira mais deliciosa do que em certas noites entre domingo e segunda-feira, quando, depois de um dia protegido, durante o qual eu pertencia apenas a mim e aos meus, o próximo já ameaçava com adversidade rígida e alheia. Nunca durmo mais profundamente, nunca regresso com mais doçura ao colo da noite do que quando me sinto infeliz, quando meu trabalho fracassa, quando o desespero me oprime, quando o asco à humanidade me obriga a refugiar-me na escuridão... e como, pergunto, poderia ser diferente, uma vez que a tristeza e a dor jamais seriam capazes de fortalecer nosso apego ao dia e ao tempo?"

Thomas Mann




Teu sorriso


É com o teu sorriso que me escrevo
e acendo o sol dentro de mim. Com
o teu sorriso faço tudo: construo pontes, dou
coragem aos navios, planto cerejeiras no olhar
de cada um dos dias. E, assim, sorrindo com
a imensa doçura que tem o teu sorriso, me dou
por inteiro, me aconteço em todos, me surpreendo
em ti, construindo-me neste amor que não tem
noites, nem dias, mas apenas os longos minutos
em que te canto e te adivinho, fazendo-te existir
para lá do desejo de adormecer na tua pele
e de sonhar que me pertence o teu sorriso.

JOAQUIM PESSOA

Hoje não há poesia em mim

Foram tantos os inteiros de mim que ali deixei. Fiz dos melhores risos a poesia mais intensa. Acreditei em todos os verbos que conjugaram infinitos em mim.
Acreditei nos momentos ímpares. Fui enobrecida com as riquezas dos olhos, que no meu olhar ficavam por instantes raros... repletos de benefícios mútuos. 
Tenho coisas que os ventos não poderão tirar pra dançar. 
Um dia fui poeta. 

A.R




Quando tudo silencia


Fotografia ~ thymournia)


"...perante a realidade suprema da minha alma, tudo o que é útil e exterior me sabe a frívolo e trivial ante a soberana e pura grandeza dos meus mais vivos e frequentes sonhos. Esses, para mim, são mais reais."

(Fernando Pessoa - "Livro do Desassossego", por Bernardo Soares.)


O silêncio das almas

 Eu não quero ser o destino  Prefiro ser o caminho.  Eu não quero ser despedida  Prefiro ser reencontro.  Eu não quero ser ponto final  Pref...