Rosados doces


 

Te sei

Estás em mim. 
Ontem 
Agora 
Amanhã, talvez. 
Teu cheiro 
Tua pele 
Teu sorriso
A tua intensidade e loucura
Teu refinamento 
Tua ausência e silêncio.
Te sei 
Te sinto 
Está tudo bem. 
Amanhã, talvez...

Radha 

Vontades

Vontade de sentar em ti
Teus olhos em mim
Tua boca quente 
Meus seios no teu peito arrepiado 
Começo a mexer  lentamente 
Rebolando 
Saindo de ti e voltando novamente 
Sentindo teu pau duro 
Entrando em minha buceta 
Ficando molhada aos poucos 
Nesse movimento bem lento 
Ouvindo teus gemidos baixinhos 
Tuas mãos em minha bunda 
Forçando a penetração mais forte 
Aumentando as estocadas 
Mexendo mais forte 
E mais 
Tua vontade de te enfiar todo em mim
Minha fome 
Quero mais
Quero tudo 
Bem forte
Até sentir teu gozo jorrando todo 
Escorrendo na buceta 
Coxas 
Agora viro de costas 
Tuas mãos em meus cabelos 
Quero de novo 
Por trás
Todo 
Forte 
Quero tua porra 
Quero mais 
De novo. 



 

Exaustão



 Tem dias em que a sensibilidade está aflorada demais e o mundo com suas ignorâncias, maldades, injustiças e desigualdades invade dolorosamente causando muita tristeza.

 Nestes dias não há consolo na espiritualidade ou na evolução da humanidade. 

São notícias ruins, crianças chorando a ausência do pai, pessoas passando fome pedindo ajuda para comprar comida, famílias destruídas pela covid, um animal de estimação morto, a indignação por tanta injustiça, a ganância o ego, a vaidade, a solidão de uns o vazio, o grito o choro...o nada. 

Nestes dias sombrios de quase escuridão prefiro silenciar. 

Observo de longe estes movimentos. 

Tento sentir até a exaustão. 

Dias difíceis. 

Seguimos! 


Sou fogo, sou vida, sou cor

 Tens muita razão, eu não sou tranquila.

Sou fogo, sou vida, sou cor.

Sou essência,sou prazer, sou rebeldia,sou instinto, sou pele, sou revolução.

Posso ser tudo, menos tranquilidade.


Frida Kahlo

Dos encantamentos


 Aldeia de Foz D'Égua  
Portugal 

Foto Jose Teló Mota

Sobre envelhecer


Então 44 anos ( putz) uns dias me sinto com 15 outros 80. E até hoje não encontrei o equilíbrio e a tranquilidade que, muitos dizem, a idade traz. Provavelmente não amadureci, provavelmente não irei amadurecer. Ainda há inquietude, inconstância, impulsividade e loucura em mim. 

Amo profundamente, tenho muitos amores de conotações distintas, tenho muita fome e sede de mudanças, de lutas, de experiências e sentimentos. E obviamente na mesma proporção tenho ódios e vazios. Tenho o grito e o silêncio. A literatura marginal do velho Buk e a doçura da Cora Coralina. A espiritualidade e a teosofia. O fado e o blues. A bossa nova e a boemia. Uma inconstante forma de ser. Nem melhor nem pior, apenas eu. E amo isso. 


Chegar para agradecer e louvar.

Louvar o ventre que me gerou

O orixá que me tomou,

E a mão da doçura de Oxum que consagrou.

Louvar a água de minha terra

O chão que me sustenta, o palco, o massapê,

A beira do abismo,

O punhal do susto de cada dia.

Agradecer as nuvens que logo são chuva,

Sereniza os sentidos

E ensina a vida a reviver.

Agradecer os amigos que fiz

E que mantém a coragem de gostar de mim, apesar de mim…

Agradecer a alegria das crianças,

As borboletas que brincam em meus quintais, reais ou não.

Agradecer a cada folha, a toda raiz, as pedras majestosas

E as pequeninas como eu, em Aruanda.

Agradecer o sol que raia o dia,

A lua que como o menino Deus espraia luz

E vira os meus sonhos de pernas pro ar.

Agradecer as marés altas

E também aquelas que levam para outros costados todos os males.

Agradecer a tudo que canta no ar,

Dentro do mato sobre o mar,

As vozes que soam de cordas tênues e partem cristais.

Agradecer os senhores que acolhem e aplaudem esse milagre.

Agradecer,

Ter o que agradecer.

Louvar e abraçar!


Maria Bethânia




Insônia...de novo.


Noite longa essa 

De pensamentos aleatórios 

Um pouco de  tédio,  excitação e desejo

As mãos então  afastam a calcinha 

E os dedos percorrem a buceta melada 

Talvez o sono apareça

Um prazer rápido

Bom nos primeiros minutos...até gozar.

Um gozo solitário

Depois um nada...

Um vazio cheio de silêncio e incompletude.



Não te sonho mais

 Sinto falta da beleza 

Da energia especial 

Daquele carinho inesperado

Da sutileza 

Da leveza 

Daquilo que te escapa 

Sinto falta do que já foi 

Não te sonho mais 

Não há mais o talvez 

Não há a dúvida. 

Só ausência. 







Amor Violeta


"O amor me fere é debaixo do braço,

de um vão entre as costelas.

Atinge meu coração é por esta via inclinada.

Eu ponho o amor no pilão com cinza

e grão de roxo e soco. Macero ele,

faço dele cataplasma

e ponho sobre a ferida."


Adélia Prado

Pois eu já velejei em vc e foi bom de doer

 Eu velejava em você

Não finja

Como coisa que não me vê

E foge de mim

A boca tremia

Os olhos ardiam

Oh Doce agonia

Oh Dor de viver

De ver tua imagem

Que eu nunca via

Tua boca molhada

Teu olhar assanhado

Convite pra se perder

Minha alma cansada

 Não faz cerimônia

Você pode entrar sem bater

Pois eu já velejei em você

E foi bom de doer

Mas foi, como sempre, um sonho

Tão longe, risonho

Sinto falta

Queria te ver


Compositores: Eduardo Dussek / Luiz Carlos Goes


Vivo clandestina e não é mole essa vida


"Vivo clandestina e não é mole essa vida clandestina

eu quero fazer com você um pacto de delicadeza.

Eu quero me sentir Alteza,

para te ceder todos os músculos

Será arbusto dos seus beijos

Vamos sair esburacando a madrugada

trocando beijos e tragadas

A lua é uma lantejoula da Nasa

que brilha leitosa no meu vestido estrelado


Fausto Fawcett

 





. "

Modo de amar


"...toma  

Morde ...

Lambe...

...Avidamente amor
com desespero e calma. 

...Ferozmente amor
com torpidez e raiva. 

...Suavemente amor

agora velozmente...


Maria Teresa Horta




 

O tédio


A rotina torna tudo desinteressante.

Bom dia,  te amo, bom trabalho, te cuida... automaticamente. 

A noite o sexo igual e limpo. 

Sem putaria ou surpresas.

Enfim naturalmente depois de alguns anos dividindo o mesmo espaço já é previsível. 

Qualquer poesia ou música bastam  para despertar um outro afeto. 

Afinal somos feitos de afetos. 

A carência é um elemento odioso. 

Cria emoções 

Intensifica sensações 

Distorce realidades 

E quando tudo passa 

Quando voltamos a realidade 

Percebemos o quanto de energia desnecessária  foi direcionada inultilmente. 

Carência?

Tédio?

Inquietude?

Não sei bem 

Mas sei que algo mudou...

E gosto disso. 

Gosto de não pertencer a nada. 

Gosto desse ar puro 

Sem pressões 

Sem direcionamento

Sem amanhã ou ontem 

Sem necessidades ou projeções

O imprevisível sem face 

Sem voz 

Sem corpo 

Sem alma 

O silêncio. 









30 minutos

 Fui me despedir

Eram  só  30 minutos para tudo o que poderia ser dito e feito 

Estavas arrumando teu material de trabalho

Te abracei 

Tu sussurrou algo em meu ouvido 

Fiquei arrepiada 

Nos beijamos por um bom tempo 

Senti o coração acelerado 

 Tua respiração ofegante 

Nossas lágrimas discretas 

Depois um breve silêncio

Olhares 

 Saí caminhando

  Sem olhar para trás

Ouvi tua voz me chamando

Te olhei 

E tuas últimas palavras 

"Ficarão  20 minutos ainda do que falta te falar e te  beijar".

Novamente um silêncio inquietante

 Eu parti

Tu partiu

Seguimos.








Antecipação

 Entreabro as minhas

coxas

no início dos teus beijos

imagino as tuas

pernas

guiadas pelo desejo

oiço baixo o teu

gemido

calado pelos meus dentes

imagino a tua boca

rasgada

sobre o meu ventre


Maria Teresa Horta

Canto o teu corpo

 Canto o teu corpo

passados estes anos:

o prazer que me

acendes

o espasmo que semeias

A seara das pernas

o peito

os teus dentes

a língua que afago

e as ancas estreitas

Canto a tua

febre

fechada no meu ventre

Canto o teu

grito

e canto as tuas veias

Canto o teu gemido

teu hálito

teus dedos

Canto o teu corpo

amor que me encandeia


Maria Teresa Horta

Teu prazer

 



Saudade do teu cheiro

Do teu gosto 

Quente 

Abundante 

Da tua mão firme em mim 

Percorrendo meu corpo 

 cabelos 

 boca 

Da tua língua em meu pescoço 

E seios 

Saudade de te sentir em mim 

Com tua força e profundidade 

Gemendo de tesão 

E sentir  teu prazer 

No arrepio do teu corpo 

No teu suor 

E respiração 

Até não saber onde sou eu 

Onde és tu. 














Das afetividades

 


E no percurso tu encontra alguém simples 

Sem neuras, vírgulas e talvez 

Naturalmente livre 

Sem algemas 

Sem poréns

Só o peito aberto

A disposição para o hoje 

Permitindo ser 

Viver e sentir 

Afetividade 

Desejo 

E loucura 

Envolvimento 

Liberdade 

E o que mais amo... naturalmente. 





Das conexões




Quando conheço alguém a primeira impressão que tenho não é referente ao físico. 
Não me chama atenção se tem olhos verdes, alto ou baixo, boca ou cabelos 
Preciso ter uma conexão. 
A energia seja ela relativa a vibração por afinidades ou não.
Não vibro só em positividade. 
Me conecto com a melancolia, com a solidão, dores e outras profundidades. Não tão bonitas. 
Talvez esteja aí a explicação de muitas relações  aleatórias, platônicas e um tanto tóxicas dentro de uma visão básica. 
Não preciso de um corpo para sentir  
Para tocar ou ser tocada 
Gosto de ultrapassar limites e sentir com tudo que há em mim
Com todos  sentidos. 
Quero sempre mais 
Até a exaustão 
Até não existir mais conexão
Até inesperadamente ter contato com outra energia 
E o ciclo recomeça
Outro afeto 
Outro carinho 
Outro! 




Permitir-se

Uma mulher francesa com sua baguete e seis garrafas de vinho, Paris, França, 1945.



 

Por um instante


 

Aqui estão alguns sonhos, vontades e verdades.

Inquietude e silêncio.

 Aqui não uso máscaras.

Por um instante posso respirar 

Só por um instante.



Se eu fosse direto ao ponto

 se eu fosse direto ao ponto

se não gozasse também

ao transcorrer tuas veias

nos olhos cerrados

nas pernas tremendo


se não estivesse no éter

não molhasse teus olhos

não abrisse teu riso

não apertasse o teu ventre


se eu fosse direto ao ponto

se só pensasse em mim

não louvaria tua pele rubra

teus peitos macios

teu dorso de fada


se não comesse com os olhos

não brincasse de vento

não sonhasse com a luz

não arranhasse o momento


se eu fosse direto ao ponto

e não estivesse em mim

muito antes de estar em ti

e sermos tanto?


Valder Valeirão 

Artista, Designer, poeta, escritor pelotense

Das sutilezas

 Natural ciclos se encerrarem.

Diariamente há mortes 

Assim como há descobertas 

Novos interesses novas sensações 

Importante naturalizar a impermanência dos sentimentos

Não há como dominar (ainda bem) ou determinar o início e o final 

Das emoções 

Do sentir 

Uns se encerram 

Outros iniciam 

Ora, se sentimos com espontaneidade e imprevisão 

Naturalmente deixamos de sentir também

Não há regras ou prazos 

Há início 

Há o fim

Há outros começos 

Sempre há. 

Isso é bom. 

 Aliás muito bom! 

KK


Das perspectivas...

 Sábado quente e atípico

Novos rumos 

Outras perspectivas 

A novidade com pulsações e sentidos acelerados 

Gosto do novo 

Do ousado 

Do talvez 

Quem sabe? 

...


Das contradições...

 TE AMO!


Te amo de uma maneira inexplicável,

de uma forma inconfessável,

de um modo contraditório.

Te amo, com meus estados de ânimo que são muitos

e mudar de humor continuadamente

pelo que você já sabe

o tempo,

a vida,

a morte.

Te amo, com o mundo que não entendo

com as pessoas que não compreendem

com a ambivalência de minha alma

com a incoerência dos meus atos

com a fatalidade do destino

com a conspiração do desejo

com a ambigüidade dos fatos

ainda quando digo que não te amo, te amo

até quando te engano, não te engano

no fundo levo a cabo um plano

para amar-te melhor

Te amo , sem refletir, inconscientemente

irresponsavelmente, espontaneamente

involuntariamente, por instinto

por impulso, irracionalmente

de fato não tenho argumentos lógicos

nem sequer improvisados

para fundamentar este amor que sinto por ti

que surgiu misteriosamente do nada

que não resolveu magicamente nada

e que milagrosamente, pouco a pouco, com pouco e nada,

melhorou o pior de mim.

Te amo

Te amo com um corpo que não pensa

com um coração que não raciocina

com uma cabeça que não coordena.

Te amo incompreensivelmente

sem perguntar-me porque te amo

sem importar-me porque te amo

sem questionar-me porque te amo

Te amo

simplesmente porque te amo...


- Gian Franco Pagliaro

O outro

 Gostava  do que éramos 

 Tesão 

Ansiedade 

Vontade 

Prazer 

O inesperado 

A incerteza 

O  talvez. 

Hoje não gosto.

Isso não está mais funcionando.

Estranheza e constrangimento

Desconforto 

Sou movida por paixões 

Por impulso 

E desejos 

Estou morrendo aos poucos 

Estás também.

Já não acelera o coração,

Já não te sinto tanto em mim 

Não sinto tua falta 

Não gozo pensando em ti 

Estranhamente 

Tanto faz.

Tudo bem. 

Nada é tão cabal!

Ou talvez seja

Em mim.

Mais uma morte 

Já me habituei.

Amanhã renasço 

Outro dia 

Outra vontade 

Outro desejo 

O outro. 







Das mortes...


Primeiro foi a loucura e o desejo 

O carinho e afeto

A ansiedade e a vontade 

Perdemos o foco 

Os sentidos e limites 

Queríamos  tudo 

Podíamos pouco 

Nossas limitações e distância 

Mas tínhamos a fome a sede 

O tesão 

O sonho 

Hoje perdemos tudo!

Não resta mais nada 

Estragamos tudo!

Há só estranheza quando te sei 

Sinto muito 

Broxei. 

Perdi o tesão. 

Estás morto. 

Seguimos! 











EDUCAÇÃO SENTIMENTAL


"Põe devagar os dedos 

devagar...


e sobe devagar 

até ao cimo


o suco lento que sentes

escorregar

é o suor das grutas

o seu vinho


Contorna o poço 

aí tens de parar

descer, talvez

tomar outro caminho...


Mas põe os dedos e sobe

devagar...


Não tenhas medo

daquilo que te ensino."


Maria Teresa Horta

Faminta II



 Sentada no sofá, em frente a TV sem prestar atenção no jornal, senti um calor percorrer meu corpo em um arrepio intenso.

Em alguns minutos estava tomada por uma fome...uma vontade de ser fodida descontroladamente. 
Meus pensamentos desconexos, respiração ofegante, o calor...o desejo 
 Senti vontade de abrir um pouco as pernas, estava de vestido curto, ficou fácil deixar a imaginação fluir. 
Minha calcinha levemente molhada e a buceta pulsando lentamente
Coloquei um dedo e percebi como estava quente e melada 
 Levei até a boca 
Chupei com vontade 
Gosto do meu gosto
Queria ser fodida naquele instante
Precisava 
Meu corpo desejava ardentemente ser penetrada com muita força e fundo
Ainda não entendia o tesão aleatório 
Mas minha mente não se concentrava em mais nada 
Levantei e fui até a janela 
Olhei e percebi  algumas pessoas transitando, sem máscara obviamente, e desisti de tentar sair e encontrar alguém para trepar. 
Não era seguro. Também não seria transar com qualquer um 
Enfim...
Voltei para o sofá. 
O  tesão ainda presente. 
A buceta latejava com muita vontade
Coloquei três dedos que ficaram molhados na mesma hora. 
Minha buceta os  sugava com muita força  
Não conseguia parar 
Precisava de um pau dentro de mim 
Só pensava em ser fodida 
Sem assuntinho ou amorzinho 
Sem carinho
Queria a penetração 
Necessito sempre dela
Meu tesão não passa enquanto não sou fodida plenamente
Fico de mau humor 
Comecei a gemer alto, 
Vizinhos no apto de baixo conversando 
Minha respiração e gemidos cada vez mais intensos 
a cada estocada 
Até gozar com um gemido alto e longo  jorrando um líquido branco espesso e abundantemente
Então um silêncio aqui e no apto de baixo 
Certamente escutaram meus gemidos que geralmente são discretos 
Não desta vez. 
Levantei,  o gozo escorreu pelas coxas,
O piso manchado 
Meus pés melados
Fui até o banheiro, tomei um banho 
Enfim uma quietude
Coloquei uma camiseta. Minha boca estava seca, servi um suco e escolhi Gibran Khalil para uma leitura
Sento no sofá 
E novamente o calor, a buceta faminta
Calcinha melada
E a fome de novo
Quero mais.
Eu sempre quero mais. 
Voltei para janela
...



Memória da pele



 ..."Não sou eu finjo que não sei, não sou eu

Sonho bocas que murmuram

Tranço em pernas que procuram enfim

Não sou eu sofro e sei

Quem se lembra de você em mim

Eu sei, eu sei

Bate é na memória da minha pele

Bate é no sangue que bombeia

Na minha veia

Bate é no champanhe que borbulhava

Na sua taça e que borbulha agora na taça da minha cabeça

Eu já esqueci você, tento crer

Nesses lábios que meus lábios sugam de prazer

Sugo sempre

Busco sempre a sonhar em vão

Cor vermelha, carne da sua boca, coração


Compositores: Joao Bosco De Freitas Mucci / Wally Salomao


Por Maria Bethânia

 "Não mastigue o que eu vou comer! 

Não junte o que não espalhei! 

Não me negue o que não pedi!



Eu que não sei quase nada do mar

 Garimpeira da beleza te achei na beira de você me achar

Me agarra na cintura, me segura e jura que não vai soltar
E vem me bebendo toda, me deixando tonta de tanto prazer
Navegando nos meus seios, mar partindo ao meio, não vou esquecer
E eu que não sei quase nada do mar descobri que não sei nada de mim
Clara noite rara nos levando além da arrebentação
Já não tenho medo de saber quem somos na escuridão
Me agarrei em seus cabelos, sua boca quente pra não me afogar
Tua língua correnteza lambe minhas pernas como faz o mar
E vem me bebendo toda me deixando tonta de tanto prazer
Navegando nos meus seios, mar partindo ao meio, não quero esquecer
E eu que não sei quase nada do mar descobri que não sei nada de mim
Clara noite rara nos levando além da arrebentação
Já não tenho medo de saber quem somos na escuridão
Clara noite rara nos levando além da arrebentação
Já não tenho medo de saber quem somos na escuridão

Compositores: Ana Carolina De Souza / Jorge Vercilo

Não sei como dizer-te que minha voz te procura

 Não sei como dizer-te que minha voz te procura

e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram.
Herberto Helder, Poesia Toda, Assírio & Alvim
(excerto do poema «Tríptico», publicado em A Colher na Boca, 1961)

Clareia manhã

A madrugada é aquela amiga que conversa  quando tudo em volta silencia. 

Hoje ela me trouxe a saudade. 

Do que foi, do que quis ser e do que nunca será

Gosto de te  lembrar 

Com isso vem teu sorriso, o som da tua voz, tua verdade e raiz. 

Teus beijos roubados nos encontros inesperados em uma rua qualquer

Tuas raras, ousadas e belas  botinas vermelhas, traço de tua autêntica personalidade 

As loucuras nas praças, bares... e também das  que nunca houveram...aquelas dos nossos sonhos

Lembra?

Este silêncio da madrugada é de saudade, vontades e inquietude

Clareia manhã 

KK

Quanto de mim há no que fui

 A falta de memória muitas vezes pode ser uma benção. Outras vezes, estranheza.

A depressão trouxe algumas sequelas, segundo psiquiatra com o tempo as lembranças voltariam, já passam 15 anos e até hoje muito do que fui ou dizem que fui me parece estranho.

O passado é memória, futuro imaginação, o hojé é o que temos. 

Assim penso minha vida, relacionamentos e enfrentamentos

Não tenho passado, somente alguns flashes de situações, pessoas, cheiros, sensações...muito do que sei chega pelo vento, por fotografias, ou aleatoriamente 

Estranhamente em muitas situações sinto o ontem com uma beleza sublime,

  com todos abismos, dores e vibrações.  

Olho para trás e aquela menina inquieta, curiosa e destemida ainda há aqui

A adolescente rebelde , militante e ousada, está aqui .

A mulher  determinada, vibrante, faminta e independente. 

 A fome e a sede 

A ilusão e a  lucidez

A guerra e a paz

a inquietude 

 impaciência

 entendimento

O contraditório

 O sonho

Mesmo sem lembrar do que fui

sei 

Qual lado,

Em que frente.

Maiakovski me sabe muito 



    


Toco a tua boca

 Toco a tua boca.

Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.

Olhas-me, de perto me olhas, cada vez mais de perto, e então brincamos aos ciclopes, olhando-nos cada vez mais de perto. Os olhos agigantam-se, aproximam-se entre si, sobrepõem-se, e os ciclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam sem vontade, mordendo-se com os lábios, quase não apoiando a língua nos dentes, brincando nos seus espaços onde um ar pesado vai e vem com um perfume velho e um silêncio. Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragrância obscura. E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela. E há apenas uma saliva e apenas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água. 

Julio Cortázar (26 agosto 1914 — 12 fevereiro 1984) 

Insônia...de novo...

 


Eternas madrugadas 

Noites quentes 

Inquietude

Cansaço

Vazio

Vinho 

Beto Guedes 

Vontades e desejos 

Suor 

Fome 

Ausência 

Eternidade 







Foda-se o universo



E novamente invades meus sonhos 

Nem o vento traz algo de ti 

Mas em sonhos tenho teus abraços e cheiro 

Tua voz 

Tua bata  branca 

Esta com bordados discretos

A qual nunca vi em ti 

Resolvi não saber mais nada 

Não há motivos para saber 

Mas o universo trata sempre de te fazer voltar 

Insiste em tua presença 

Irritantemente

Foda- se o universo

Foda- se os sonhos 

Foda- se essa bata branca

E teus abraços 

Amanhece logo. 

Desperta! 








 









 

Mas é claro que o sol vai voltar amanhã...


 

A liberdade ofende


 "Ela é tão livre que um dia será presa.


— Presa por quê?

— Por excesso de liberdade.

— Mas essa liberdade é inocente?

— É. Até mesmo ingênua.

— Então por que a prisão?

— Porque a liberdade ofende."

Clarice Lispector

O silêncio das almas

 Eu não quero ser o destino  Prefiro ser o caminho.  Eu não quero ser despedida  Prefiro ser reencontro.  Eu não quero ser ponto final  Pref...