A ninfa inconstante

O passado só se faz visível através de um presente fictício — e no entanto toda ficção perecerá. Não restará então do passado mais que a memória pessoal, intransferível. Não me interessa a impostura literária mas a verdade que se diz com palavras que necessariamente vão umas atrás das outras embora expressem ideias simultâneas. Sei que uma frase é sempre uma questão moral. Há uma memória ética? Ou é estética, isto é, seletiva? A memória é outro labirinto em que se entra e às vezes não se sai. Mas são fantásticos, inúmeros, os corredores da memória, fora da qual há um só tempo real que é aquele que se recorda — isto é, eu mesmo agora quando a máquina de escrever é a verdadeira máquina do tempo. Escrever, o que faço agora, não é mais que uma das formas que a memória adota. O que escrevo é o que recordo — o que recordo é o que escrevo. Entre ambas as ações estão as omissões — que são os interstícios, o que resta. Isto é, meu buraco: o espaço do tempo recordado. É tão fácil recordar, tão difícil olvidar... Não é o que diz a canção? Ou diz...? Não me lembro, olvidei. Recordar é gravar num idioma ou outro. Mas olvidar não tem equivalência... O amor é um dédalo delicado que oculta seu centro, um monstro escuro.


Guillermo Cabrera

Hilda Hilst por Maria Bethânia



"A minha casa é guardiã do meu corpo
e protetora de todas minhas ardências
E transmutem palavras, paixão e veemência
e minha boca se faz fonte de prata

Ainda que eu grite a casa que só existo
para sorver a água da tua boca
a minha casa Dionísio te lamenta
e manda que eu te pergunte assim de frente:

Há uma mulher que canta ensolarada
e que sonora múltipla argonauta,
porque recusas amor e permanece?"


O silêncio das almas

 Eu não quero ser o destino  Prefiro ser o caminho.  Eu não quero ser despedida  Prefiro ser reencontro.  Eu não quero ser ponto final  Pref...