O passado só se faz visível através de um presente fictício —
e no entanto toda ficção perecerá. Não restará então do passado
mais que a memória pessoal, intransferível.
Não me interessa a impostura literária mas a verdade que se
diz com palavras que necessariamente vão umas atrás das outras
embora expressem ideias simultâneas. Sei que uma frase é sempre uma questão moral. Há uma memória ética? Ou é estética,
isto é, seletiva?
A memória é outro labirinto em que se entra e às vezes não
se sai. Mas são fantásticos, inúmeros, os corredores da memória,
fora da qual há um só tempo real que é aquele que se recorda
— isto é, eu mesmo agora quando a máquina de escrever é a
verdadeira máquina do tempo.
Escrever, o que faço agora, não é mais que uma das formas
que a memória adota. O que escrevo é o que recordo — o que
recordo é o que escrevo.
Entre ambas as ações estão as omissões — que são os interstícios, o que resta. Isto é, meu buraco: o espaço do tempo recordado.
É tão fácil recordar, tão difícil olvidar... Não é o que diz a
canção? Ou diz...? Não me lembro, olvidei. Recordar é gravar
num idioma ou outro. Mas olvidar não tem equivalência...
O amor é um dédalo delicado que oculta seu centro, um
monstro escuro.
Guillermo Cabrera
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