Gosto

 gosto quando, eu deitada na cama, de bruços

e tu então vens, inclinado

e me olhas


gosto porque teu olhar se demora, e é como se

quisesses ler os sinais


as pintas

as marcas de nascença


tu, que não te curvas a ninguém

nessa hora tu és homem inteiro curvado sobre meu corpo


respirando comigo

dizendo que em outros tempos em minhas costas um adivinho teria previsto um dia de fim


uma cidade tomada


mar becker 

em: caminhos, "canção derruída" (assírio & alvim ─ portugal, 2023)

Os silêncios da fala


OS SILÊNCIOS DA FALA


São tantos

os silêncios da fala

De sede

De saliva

De suor

Silêncios de silex

no corpo do silêncio

Silêncios de vento

de mar

e de torpor

De amor

Depois, há as jarras

com rosas de silêncio

Os gemidos

nas camas

As ancas

O sabor

O silêncio que posto

em cima do silêncio

usurpa do silêncio o seu magro labor.


MARIA TERESA HORTA



Rapaz dos olhos cinza

 No meio de nossas conversas bobas, gostaria de falar sobre seus olhos cinza.

Do vazio e de suas ressacas.

De suas dores puxando as minhas..

Para ser sincera,  não sei como cheguei a esse ponto..

De vasculhar o vazio entre as córneas de alguém..

E encontrar ali dentro uma alma despedaçada..

Rimos e isso é bom..

Afinal, nos cumprimentamos como se tudo estivesse bem..

Permaneço ali do teu lado para observar nos teus olhos o que não consegue dizer..

Eu vejo um menino tragado pela vida, mas isso você já sabe ou pelo menos é o que conta para todos.. e eles acreditam..

Mas no fundo, eu não acredito no que você  conta..

Sabe aquele restinho de trago? A vida ali permanece intacta...

Rapaz dos olhos cinza.  


Adriele Teodoro

Na pele

 estás-me na pele

dentro dos dias que não se adiantam

nas cicatrizes das histórias mudas

no tempo imóvel

da tua mão voando

dos sorrisos desvanecidos

de mim sem te perceber

na minha pele 

por dentro da minha pele

nas nuvens que passam despercebidas

deste céu sempre incolor

sem me lembrar da cor dos teus olhos

na minha pele

decalcada

perene

mesmo que os bandos de aves voem em redor

e o mar mantenha as vagas

arremessadas à praia

e a boca surda

castigue os meus lábios

na sede dos teus beijos

a tua pele 

o castigo de todas as ausências

do teu lençol rasgado

na manhã que irrompe incompreendida

a tua pele

brilhando ao longe

eterno farol

que me cega

e me rasga a pele

seca

salgada

das lágrimas que não tenho

da memória da tua pele


Jorge Bicho

O silêncio das almas

 Eu não quero ser o destino  Prefiro ser o caminho.  Eu não quero ser despedida  Prefiro ser reencontro.  Eu não quero ser ponto final  Pref...