Na pele

 estás-me na pele

dentro dos dias que não se adiantam

nas cicatrizes das histórias mudas

no tempo imóvel

da tua mão voando

dos sorrisos desvanecidos

de mim sem te perceber

na minha pele 

por dentro da minha pele

nas nuvens que passam despercebidas

deste céu sempre incolor

sem me lembrar da cor dos teus olhos

na minha pele

decalcada

perene

mesmo que os bandos de aves voem em redor

e o mar mantenha as vagas

arremessadas à praia

e a boca surda

castigue os meus lábios

na sede dos teus beijos

a tua pele 

o castigo de todas as ausências

do teu lençol rasgado

na manhã que irrompe incompreendida

a tua pele

brilhando ao longe

eterno farol

que me cega

e me rasga a pele

seca

salgada

das lágrimas que não tenho

da memória da tua pele


Jorge Bicho

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