Se sou estranha...


" Se eu sou estranha por tentar semear no caminho sementes de alegria.
Se eu sou estranha por sorrir para a vida mesmo que tudo fique difícil.
Se eu sou por acreditar que o mundo é um ser vivo que tem o direito de receber,
Não só a dar.
Se eu sou por ter ouvidos aos sons  da natureza,
Em vez dos enganadores cantos de sereia da sociedade.
Se eu defendo que a ajuda não se compra nem é vendida,
Mas se empresta.
Se me emociona o retorno,
Todos os anos,
De uma andorinha ao ninho que a viu nascer.
Se fico indignada de ver uma mulher com as mãos no coração ferido,
Se me dói o menino de olhar triste,
Que se cruza no meu caminho.
Se eu sou estranha por pensar que para humanidade ainda resta uma esperança, por mínima que seja,
Enquanto houver uma só pessoa que acredite nisso.
Se conseguirem embelezar o som de uma nota,
O embalo de um mar em calma,
Se eu não ouvir as palavras
Porque eu me perco na voz que as pronuncia,
Se sou estranha por acordar,
A meia noite,
Com a lembrança de um verso ligado à minha boca (acontece muito),
Se eu sou estranha por acreditar que o coração me dá a liberdade e a razão,
Se sou estranha por me vestir de palhaça para roubar o sorriso de uma amiga,
Se eu sou por me olhar em uns olhos com a esperança de me ver refletida neles,
Então, sim.
Então confesso que sou estranha.
E enquanto ficar no meu corpo um sopro de vida
Lutarei por continuar a ser e por deixar constância disso."
WitchWolf 

Enigma do mar

dói-me tua falta. não só no corpo
dói-me também em cada canto da casa, em cada ângulo. às vezes acho que nem o vento deveria entrar pela janela

ele não deveria seguir, índio, entrando manso pelo corredor até os fundos do terreno. porque era esse o caminho que tu fazias ao voltar da lida e me encontrar
e viver um beijo na minha boca, e por isso mesmo

se pudesse pedir algo ao deus ou ao diabo que zelam e sempre zelaram juntos por esta terra sem promessa, se pudesse levantar minha voz, eu então a levantaria para pedir que nada, nem o vento, nem o pó

que nenhuma matéria parida por nosso céu ou nosso lodo venha a ocupar os trajetos da tua ausência. o que sei do rio grande é que ele sempre te levará embora de mim - e, ainda que voltes, sempre será uma eternidade

então que pelo menos a luz não invada aquele pouco pedaço de chão onde até poucos dias teu corpo deitava sombra no fim da tarde - tu sentado no banquinho baixo, a cuia na mão. e se em algum domingo eu tomar chuva e volver ao rancho com o cabelo pingando, então que não me sente à beira do lado da cama onde tu dormes

que cuide para que esse lugar não chegue a conhecer águas assim tão devastadoramente doces como as da minha melancolia

que pelo menos nesse espaço dos lençóis tudo seja vestígio de água salgada, de suor, as noites em que me tomas tua mulher e minha pele aprende a repor no teu gosto o enigma do mar



mar becker

ESPETÁCULO


Ela tinha tesão 
Estampado em
Seus lábios    
   
Uma orquestra 
Louca
E sem direção

A terra toda inerte  
Ao seu espetáculo 
Particular

Ilícito 
Porém 
Mediculoso

Num misto 
De loucura 
E improviso 

Regada 
Ao desejo 
Vodka 
E gelo.

Ninguém 
Que à conhecera

Havia percebido  
O infinito do céu 
Sob seus olhos  

Ao menos decifrado 
Suas cicatrizes

De uma vida 
Quase feliz

Para uma alma
Quase inocente

Pedro Britto

FARSANTE (ou Falso brilhante)


Como promessa
Por curtos momentos
Eu fui feliz
Em poucos feitos
Que bem fiz
Os demais intentos
Deixei-os desfeitos
E me desfiz

Como promessa
Por raros instantes
Eu fui demais
Mas descontente
Queria mais
Não eram bastantes
Para quem sente
Tudo fugaz

Passaram os anos
Foram-se os planos
E os desenganos
Cresceram em mim

Passou o tempo
Feito contratempo
E meu mal (mau exemplo...)
Foi o que fui enfim

Mario Pinheiro



Tu mesma, infinita.


Ávidos de ter, homens e mulheres caminham pelas ruas.
As amigas sonâmbulas, invadidas de um novo a mais querer,
Se debruçam banais, sobre as vitrines curvas.
Uma pergunta brusca, enquanto tu caminhas pelas ruas.
Te pergunto: E a entranha?
De ti mesma, de um poder que te foi dado
Alguma coisa clara se fez? Ou porque tudo se perdeu
É que procuras nas vitrines curvas, tu mesma,
Possuída de sonho, tu mesma infinita, maga,
Tua aventura de ser, tão esquecida?
Por que não tentas esse poço de dentro
O incomensurável, um passeio veemente pela vida?

Teu outro rosto. Único. Primeiro. E encantada
De ter teu rosto verdadeiro, desejarias nada.

H.

Os amantes

Quem os vê andar pela cidade
se todos estão cegos?
Eles se tomam as mãos: algo fala
entre seus dedos, línguas doces
lambem a úmida palma, correm pelas falanges,
e acima a noite está cheia de olhos.

São os amantes, sua ilha flutua à deriva
rumo a mortes na relva, rumo a portos
que se abrem nos lençóis.
Tudo se desordena por entre eles,
tudo encontra seu signo escamoteado;
porém eles nem mesmo sabem
que enquanto rodam em sua amarga arena
há uma pausa na criação do nada
o tigre é um jardim que brinca.

Amanhece nos caminhões de lixo,
começam a sair os cegos,
o ministério abre suas portas.
Os amantes cansados se fitam e se tocam
uma vez mais antes de haurir o dia.

Já estão vestidos, já se vão pela rua.
E só então,
quando estão mortos, quando estão vestidos,
é que a cidade os recupera hipócrita
e lhes impõe os seus deveres quotidianos.


 Julio Cortázar

O silêncio das almas

 Eu não quero ser o destino  Prefiro ser o caminho.  Eu não quero ser despedida  Prefiro ser reencontro.  Eu não quero ser ponto final  Pref...