dói-me tua falta. não só no corpo
dói-me também em cada canto da casa, em cada ângulo. às vezes acho que nem o vento deveria entrar pela janela
ele não deveria seguir, índio, entrando manso pelo corredor até os fundos do terreno. porque era esse o caminho que tu fazias ao voltar da lida e me encontrar
e viver um beijo na minha boca, e por isso mesmo
se pudesse pedir algo ao deus ou ao diabo que zelam e sempre zelaram juntos por esta terra sem promessa, se pudesse levantar minha voz, eu então a levantaria para pedir que nada, nem o vento, nem o pó
que nenhuma matéria parida por nosso céu ou nosso lodo venha a ocupar os trajetos da tua ausência. o que sei do rio grande é que ele sempre te levará embora de mim - e, ainda que voltes, sempre será uma eternidade
então que pelo menos a luz não invada aquele pouco pedaço de chão onde até poucos dias teu corpo deitava sombra no fim da tarde - tu sentado no banquinho baixo, a cuia na mão. e se em algum domingo eu tomar chuva e volver ao rancho com o cabelo pingando, então que não me sente à beira do lado da cama onde tu dormes
que cuide para que esse lugar não chegue a conhecer águas assim tão devastadoramente doces como as da minha melancolia
que pelo menos nesse espaço dos lençóis tudo seja vestígio de água salgada, de suor, as noites em que me tomas tua mulher e minha pele aprende a repor no teu gosto o enigma do mar
mar becker
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