Os versos que decorei para ti

O amor estava sob a mesa, mostrando-me seus grandes olhos fixos, seus imperceptíveis segredos noturnos. E sorrindo suavemente enquanto caminhávamos pela calçada em um dia iluminado de outono, em qualquer século. Depois da curva do rio só há mais águas verdes e algumas esperanças esparsas, eu tentava te dizer. Além do oceano só há mais terra, gente e o silêncio das noites claras, pensava em esquecer. Pessoas fazendo as mesmas coisas que se faz cá do outro lado, nestes desfiladeiros de esperas e ausências. Quando a tempestade abrupta despencou sob a terra eu não trazia guarda-chuva e andava de ônibus olhando para a cidade, reparando em suas composições estranhas, sujas, não-ordenadas. Meus pés encharcados, meus cabelos molhados, meus cadernos riscados, meus poemas ruins e esquecidos, as coisas que eu detesto empilhadas enquanto as águas embriagadas de céu saltavam da eternidade, de um lugar que não conheço, nem alcanço. Muito além de nós. Na vertente de rio manso não se vê o fundo, não se conta mais as horas. Tudo é começo, impulso de vida, de prazer. Queria saber o que é e como nasce. Mais tarde, em casa, diante do silêncio das noites invisíveis. Você me oferecia um café, nesse sopro de existência teus olhos eram os faróis que conduziam. Eu te oferecia uns versos que decorei. Ainda lembra? "Corridinho" da Adélia. Era assim, de frente: "O amor quer abraçar e não pode/ A multidão em volta / Com seus olhos cediços / Põe cacos de vidro no muro para o amor desistir..." Recitava estas palavras e as minhas mãos falavam aquilo que meus lábios não tinham coragem de dizer, mas deveriam. Tanta coisa que se deve fazer nessa vida. Tanta carta escrita e nunca entregue. Esquece. Ninguém manda mais carta nesse mundo, ninguém lembra da importância dos trens, das chegadas e partidas nas estações. Os trilhos estão quebrados, os maquinistas desempregados, barco sem porto, tempo que varre o mofo, soterrando corpos e mentes. Por isso escrevemos coisas como cartas e se faz coisas como declarações de amor, ridículas, estupidamente ridículas diria Fernando Pessoa, ainda que belas. 
Se eu não fosse tão prosaica ao pensar nestas histórias antigas escritas por seres mortos... Enviaria a bendita carta, assinaria meu nome com essa letra grande, esse perfume grudado nas páginas, beijando as memórias de certo inverno, experimentando um aroma que quando se misturava ao teu naquelas manhãs de junho inventava segredos que não ouso contar. O frio lá fora, um alvorecer entre pernas e lábios, dizendo-me tudo. Barulho de trens, explicações nas cartas: Com todo carinho do mundo e tantas coisas para dizer. Escrever é só uma flor jogada ao mar, uma forma de não me calar para sempre, um jeito de dizer do amor, da coragem, da solidão. E publicar... acho que publicar é só uma maneira de evitar a decomposição da matéria orgânica, de criar laços singulares com quem lê, de abrir possibilidades de debate, democrático, onírico.
Essas coisas de gente clichê, de gente comum que enxerga pouco além da esquina ou além do próprio egoísmo. Ah, eu sei como dói abrir as verdades, revirar as misérias, esbarrar nas mentiras em uma tarde imensa de domingo. Só me resta te dizer que vale a pena, sim. Tem algumas coisas bem bonitas dentro das palavras, no vértice da vida que dança.

Giovana Carlos


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