que difícil te perder. eu me entregaria ao desalento
emudeceria por uma vida inteira - e nesse tempo talvez aprendesse a linguagem das aves
no fim do verão escreveria cartas de amor às viúvas, como se lhes dizendo que pode haver sentido nisto de esperar a chuva
no lugar de te perder, também eu passaria anos esperando pela descoberta
e catalogação de novas estrelas. entraria para alguma ordem religiosa. faria votos de pobreza, jejuaria
perco-te com mais tristeza do que se visse que depois de dias e noites pendendo à beira de si a rosa de gamoneda cedeu à morte em vez de ceder ao perfume
com mais tristeza descobriria uma língua antiga que não tem registros do teu nome
com mais tristeza reconheceria a falta do teu nome nessa língua do que reconheço hoje como me faltam palavras na minha própria
mar becker
em: um poema do caderno dos lenços. manterei esta versão para a série "amar, ruir", 2020
gamoneda: menção a uma imagem do livro do frio, de antonio gamoneda, o poeta
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