Há nos ares o presságio
de um retorno ao passado
um silêncio coletivo expirado
que um dia acordou sob a força do horror
pela voz dos senhores da guerra
esbravejantes furiosos da beirada da Terra
que, plana, plaina etérea na noite
ante outra terra que acolhe seus corpos
(mas isso é assunto dos mortos)
Observamos, à espreita,
como num grande espetáculo
um estranho baile de máscaras
na Veneza do andar de baixo
onde sem toque de recolher
o fascismo se ergue e ruge
bem no centro da cidade
e alguns correm avassalados
(mas isso é assunto dos ratos)
É o tempo presente no futuro ao contrário
feito farsa nefasta fulminando os fatos
Que distorcem a dor
que desfazem da fome
uma dor que tem cor, mas falta o nome
no epitáfio do sentido.
Um dia a humanidade
há de explicar tal tormento
(mas isso é assunto do tempo)
A sanidade, desfigurada, em vã amargura
ao olhar-se no espelho preferiu a loucura
pois com ela se levantam deuses próprios...
-Mas é tarde – diz o coelho – é muito tarde!
e sequer levantamos para o seguir
e quem sabe cair por uma fenda
onde as horas sejam crianças e haja tempo
pra cada Alice reescrever a sua parte
(mas isso é assunto da arte)
A arte que atormenta e revolve os sentidos
quando nada faz sentido e a ordem é gritar
Ficaremos na espera?
Ficaremos na escuta?
Nos faremos conchas mudas
frente ao apelo do mar?
Gritar pois! Nas ruas! Ao arrebentar do peito!
Com efeito! De novo e de novo e de novo!
E isso é assunto do povo!
Alana Nunes

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