Gosto...


Gosto de estar sozinha sabendo que há gente perto, gosto de me estender na relva, de me sentar no chão, de andar descalça. 
Gosto dos fins de tarde, no verão, da luz a adormecer no rio. 
Gosto de me enterrar na areia, de mergulhar nua no mar.
Gosto do cheiro dos lençóis lavados, principalmente daqueles que a mãe punha na cama quando eu era criança. 
Gosto de lembrar o assobio do meu pai quando chegava a casa. 
Gosto de gargalhadas destrambelhadas, gosto de dançar feita doida.
Gosto de me enroscar. Gosto de mantas e lenços.
Gosto de entrar num livro e perder a noção do tempo.
Gosto de personagens complexas, das suas fraquezas e contradições.
Gosto de retratos a preto e branco.
Gosto de me escapulir que nem lagartixa nos muros.
Gosto de sentir a água quente a correr pelo corpo.
Gosto de trepadeiras e árvores de copa redonda. 
Gosto de alpendres e cadeiras de baloiço.
Gosto de estar sentada no silêncio das igrejas, ainda que não seja crente. Gosto de vitrais e de florestas sombrias.
Gosto do cheirinho dos cachorros quando nascem e do pão acabado de cozer.
Gosto de gente e de abraços.
Gosto de adormecer os bebés ao som da minha voz.
Gosto do amor antes de acontecer.
Gosto do vermelho, gosto dele tingindo as papoilas, gosto dele apontando caminhos de revolta e de esperança.

Maria Jorgete Teixeira

Um comentário:

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