Um poema de Valder Valeirão

Sinto tua voz me olhando, a respiração tocando, os olhos falando. 
Sim, isso parece confuso pra mim também. Antes de ti, os sentidos estavam corretos, a boca falava, os olhos olhavam, a respiração se perdia, mas até aí, tudo bem. Tudo ia bem até aquele dia em que os pássaros voaram sobre nós e nos tornamos eternos, como os fins de tarde que nunca acabaram.
 Antes de ti as horas eram senhoras do tempo, os dias eram bem definidos, latidos de cães e luzes acendendo. 
Depois de certo momento vinha o sol e apagava as luzes para o dia renascer.
 Antes de ti os abismos eram abismos e muitas coisas não faziam sentido, mas tinha sempre uma canção ao fundo, esse cenário de tantas esperas, a solidão do último acorde, o silêncio intransponível. 
Mas agora, sinto a luz na tua pele, a poesia na tinta que desenha teus desejos, o gosto daquele último beijo – não, não esse que pensaste, mas aquele outro, antes desse, que é infinito e já nem sabemos mais quando terminou, se terminou... 
Sim, falo daquele beijo que não cessa e dessa vontade de que a vida não acabe nunca mais.

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